Ruth Rocha completa 50 anos de uma carreira dedicada às crianças

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Eduardo Gayer, especial para o Estado
13 de abril de 2019 | 03h00

 

Ela faz ginástica e RPG para manter a saúde; recorre a audiolivros em dias em que a visão está mais comprometida; e tem, ainda hoje, a folha em branco como seu maior desafio. Falamos de Ruth Rocha, consagrada escritora de livros infantojuvenis que, em 2019, completa 50 anos de carreira. A autora de clássicos como Marcelo, Marmelo, Martelo e O Reizinho Mandão recebeu o Estado para uma entrevista exclusiva em sua casa, em São Paulo.

 

Com obras adotadas por escolas ao longo de décadas, Ruth Rocha ajudou na formação de milhares de crianças. “Sinto a responsabilidade, é claro, mas eu acho que sempre escrevi coisas positivas e importantes. Eu falo sobre justiça, verdade, amizade, sustentabilidade, direitos humanos. Eu condeno o autoritarismo”, diz a escritora, oito vezes vencedora do Prêmio Jabuti e membro da Academia Paulista de Letras. Já lançou livros na ONU e no Salão Negro do Congresso Nacional.

 

De fato, para ela, dedicar-se a livros infantojuvenis nunca foi impeditivo para tratar de temas sérios. Ruth Rocha escreveu sátiras à ditadura militar, em meio à censura e à perseguição a opositores dos anos de chumbo. “Fazer isso me deixava tensa, claro, eu tinha um medo danado. Mas tinha de fazer.”

 

Uma das críticas ao regime é o livro O Reizinho Mandão, incluído na lista de honra do prêmio internacional Hans Christian Andersen. A história traz um líder que mandava todo mundo calar a boca; o povo, de tão calado, esqueceu como falar. A escritora conta um episódio que viveu em uma escola, quando comentava sobre a obra com crianças.

 

“Esse é o presidente?”, perguntou um menino.
“É, digamos que pode ser um pai, um irmão mandão...”, respondi, evasiva, pois estávamos no auge da ditadura.
“Mas esse é o presidente”, insistiu a criança.
“É...”
“Você não tem medo da polícia, não?”

Hoje, Ruth ri da passagem, mas lembra-se de que tinha medo, de fato, de retaliações do governo. “Não viram o que eu estava dizendo. Na verdade, eles não olharam história infantil, só vigiavam a música popular.”

 

Outro sucesso da autora – o maior em termos de vendas, com mais de 20 milhões de exemplares comercializados até hoje – é Marcelo, Marmelo, Martelo. Já foi adaptado para o teatro e será transformado em série pela produtora Coiote, mas não é o preferido de sua criadora. “Na verdade, não sei dizer de qual eu gosto mais. Vários fizeram época.”

 

O que Ruth Rocha diria a pais que querem incentivar filhos a ler? “Leiam. Comprem livros, contem histórias. Criança gosta de novidade, de aprender”, afirma. A escritora gosta da liberdade com a qual as crianças são criadas hoje em dia – “tudo bem que, às vezes, extrapola”, diz, mas, para ela, isso ainda é melhor do que o autoritarismo de antigamente.

 

Ruth Rocha gosta de ler poesias de Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes e Cecília Meirelles, mas também se dedica a best-sellers, como Sapiens e Homo Deus, duas publicações de Yuval Harari. “Quem não lê, não escreve”, diz. Aos 88 anos, não pensa, nem de longe, em parar de fazer o que ama: produzir literatura infantojuvenil. “É quase como parar de viver!”

 

Pouco afeita ao computador, está escrevendo, à mão, um novo livro, o Almanaque do Marcelo, com piadas, historinhas e curiosidades. O ‘novo filho’ deve ser lançado até o final do ano, para sorte das crianças – e dos adultos também.

 

Sucesso de Ruth Rocha é adaptado e deve virar série

 

Marcelo, Marmelo, Martelo pode virar série. A produtora Coiote conseguiu autorização de Ruth Rocha para a adaptação, e agora busca patrocínio ou parcerias com empresas do ramo para transformar o maior sucesso da escritora em uma produção de streaming.

 

“É sempre um desafio, mas acreditamos que já partimos com o interesse de um grande público, de várias gerações”, afirma Margarida Ribeiro, integrante da equipe que levará para as telas o livro de mais de 20 milhões de cópias vendidas. A direção será de Calvito Leal e Duda Vaisman.

 

“Estou na expectativa de ver o que vai sair, como vai ser. Naturalmente, estou feliz, porque televisão é importante, as crianças adoram”, diz Ruth Rocha. “Expande a história. O público de TV que não é leitor pode ganhar interesse em ler. E o público que é leitor vai ter interesse na série.”

 

Na maioria das vezes, a escritora não autoriza pedidos de adaptação de seus livros. “Vem muita bobagem, o livro vira outra história. Tem de ter a essência do original.”

 

Ruth Rocha não acredita que os produtos audiovisuais ‘roubam’ as crianças dos livros. “A TV, os tablets roubam um pouco de tempo, sim, mas também estimulam e podem remeter aos livros”, afirma ainda. “Não devemos demonizar nada”, acrescenta.

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