E, por fim, além de tudo isso, o mundo se encarrega de fazê-los se deparar com situações concretas que escapam totalmente a seu controle, e, por vezes, os surpreendem com uma mudança brusca no curso das coisas. Temas como esses estão, em geral, entre aqueles que uma sociedade superprotetora e conservadora de nossos dias acha que "não devem chegar aos ouvidos das crianças".
Katherine Paterson não se interessa em preservar uma noção idílica e artificial de infância; sabe que crescer é um processo doloroso. Seus personagens são construídos com um alto grau de profundidade psicológica - não podem ser divididos simplesmente entre bons e maus. Possuem desejos contraditórios, momentos de covardia e de coragem, de força e de fraqueza. Não são heróis como os costumamos conceber, sempre nobres, generosos e audazes; são seres humanos comuns, muitas vezes frágeis, muitas vezes mesquinhos, que não escondem seu medo e dor. A despeito disso, é quase inevitável admirá-los, á medida que vamos acompanhando sua trajetória - suas escolhas, seu crescimento; a maneira que descobrem de encontrar um equilíbrio entre seus desejos e a realidade que os cerca. Não enfrentam monstros ou vilões com poderes mágicos, mas sim seus próprios desejos e temores, e os desejos e temores daqueles que lhes estão próximos. Possuem problemas muito concretos, como dinheiro, conflitos com a família e com os colegas de escola. Tornam-se admiráveis menos por sua perfeição e mais pela maneira que encontram para lidar com as próprias limitações.
Cada livro de Katherine é, a despeito das diferenças temáticas e de pano de fundo, a descrição da trajetória de amadurecimento de uma criança que em algum momento decide enfrentar o desafio de se tornar um adulto, responsável pela própria vida e pela dos outros.
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