Caipiras
e sertanejos
Não há, oh gente, oh não,
luar como esse do sertão
O
verso imortal do poeta Catulo da Paixão Cearense, que serve de refrão
para uma canção de nove estrofes, em estilo pomposo e parnasianista,
é sem dúvida um dos mais conhecidos desta forma de poesia popular
que atendia pelo nome de "música caipira".
Luar do Sertão, musicada por João Teixeira Guimarães
(o João Pernambuco) ainda é uma das canções mais
gravadas da música brasileira, embora raramente o seja na íntegra.
A obra, de 1913, personifica bem um determinado momento de nossa história
em que houve grande preocupação com a identidade nacional, fenômeno
que parece repetir-se ciclicamente na cultura brasileira.
Embora
já pudéssemos falar de uma significativa cultura caipira no
início do século XX - mais identificada com o interior da região
Sudeste, e conhecida nos outros Estados como "sertaneja" ou "cabocla"
-, o sucesso nacional deste gênero musical só foi alcançado
após a consolidação da indústria fonográfica
e principalmente da radiodifusão. Foi também graças à
contribuição de uns poucos idealistas, como Cornelio Pires e seus sobrinhos Mauro Pires e Ariowaldo Pires,
que pesquisaram, gravaram
e, sobretudo, difundiram a música e a estética que lhe é
peculiar.
Naquela época, o termo caipira não tinha ainda a conotação
pejorativa que lhe foi emprestada mais tarde, pois embora "o caipira
ingênuo" fosse um tipo muito explorado pelo teatro cômico,
o personagem, na maioria das vezes, saía-se bem no final da história
(como nas estripulias de Pedro Malasartes, personagem do folclore brasileiro).
Também daí vem a imagem estereotipada que nos chegou do caipira
com barbicha, chapéu de palha, camisa xadrez de cores berrantes e calça
remendada.
Durante muito tempo, a denominação "caipira" coexistiu
com a de "sertanejo" sem que se denotasse substancial juízo
de valor de uma em relação à outra. O termo também
se tornou sufixo de dupla, aludindo à formação mais comum
aos executantes deste estilo musical: um músico ao violão e
outro na viola, ambos cantando em diferentes tessituras
(primeira e segunda vozes). Algumas duplas famosas foram Jararaca & Ratinho,
Cascatinha & Inhana, Alvarenga & Ranchinho, além da dupla-símbolo:
Tonico & Tinoco.
Cantando sobre temas simples da vida rural (e depois urbana, à medida
que as cidades do interior se desenvolviam), numa poesia direta, embora propensa
a rebuscamentos e permeada de expressões regionais, oscilando entre
a tragédia e o humor escrachado, a literatura musical sertaneja ganhou
personalidade e popularidade ao longo das décadas de 30, 40 e 50.
Como não poderia deixar de ser, ela não tardou a sofrer influências
de outros estilos de
música, à medida que a indústria cultural se expandiu
e passou a valorizar as tendências cosmopolitas ao invés do elemento
regional. O mesmo aconteceu com outros estilos, originando por exemplo, a
bossa-nova (releitura do samba
influenciada pelo jazz). Os primeiros ritmos
estrangeiros que influenciaram nossa música regional foram provavelmente
o bolero caribenho e a guarânia paraguaia, propiciando uma série
de fusões e simplificações rítmicas que aos poucos
homogeneizaram o som sertanejo.
Nas décadas de 70 e 80, o fenômeno de massificação
do sertanejo tornou-se ainda mais forte, associado a uma verdadeira invasão
estética da música mexicana, copiada desde os arranjos
(com aquele famoso pistonzinho) até a indumentária.
As versões, traduções e paródias
em geral nunca foram tão comuns quanto naquela época.
Nova geração de duplas surgiu, lançando nomes como os
de Belmonte & Amaraí, Pedro Bento & Zé da Estrada, Tião
Carreiro & Pardinho e os ilustres Milionário & José
Rico -, que chegaram a ganhar um filme autobiográfico do cineasta Nelson
Pereira dos Santos, A Estrada da Vida, nome de sua canção
de maior sucesso.
Observou-se também na época, uma migração de artistas
que não conseguiram projeção suficiente em outros estilos
(particularmente os da jovem-guarda)
para o novo "sertanejo urbano". O exemplo emblemático é
o do cantor e compositor Sérgio Reis, autor do hit,
e trilha de filme homônimo, O Menino da Porteira.
A fase seguinte da "música sertaneja" (que muitos puristas
julgam não comportar tal denominação) ficou marcada pela
eletrificação dos conjuntos e uma fusão ainda mais íntima
com os ritmos estrangeiros, desta vez com a música romântica,
o country estilo Nashville, e até mesmo o rock comercial, ambos
americanos. Esta é a tendência que continuamos observando nos
dias de hoje, e que entronizou como ídolos musicais, em escala nacional,
os chamados "Amigos": Chitãozinho & Xororó, Leandro
(este já falecido) & Leonardo, Zezé de Camargo & Luciano
e João Paulo (também falecido) & Daniel, entre outros. Podemos
também incluir na crista desta onda a novíssima geração
dos irmãos Sandy & Júnior (filhos de Xororó) que
iniciaram na carreira ainda muito crianças, e que hoje em dia fazem
uma mistura pop-romântico-dançante que em nada lembra as antigas
modas de viola.
Esta fase atual, que continua recebendo o rótulo de Sertanejo, guarda
pouquíssimas referências da cultura sertaneja tradicional, e
menos ainda com o jeito caipira de ser.
Embora vários artistas tenham se mantido fiéis às referências
históricas, persistindo na agora chamada "música de raiz"
- tais como Cacique & Pajé, Pena Branca & Xavantinho (este
último já falecido) ou o violeiro Almir Sater - , percebe-se
que eles não atingem nem de longe a popularidade dos sertanejos modernos,
(tomando-se como sintoma de popularidade a venda de CDs, é claro).