Villa-Lobos:
O Índio de Casaca
Um
dos apelidos de Heitor Villa-Lobos, o mais célebre dos maestros brasileiros
- com todo respeito ao campinense Carlos Gomes, seu antecessor - é
O Índio de Casaca, termo cunhado para demonstrar que, atrás
da formação do músico erudito, uma natureza selvagem
e bem brasileira transparecia.
Sabendo-se que a obra de um compositor, como a de qualquer outro artista,
não surge do nada, mas resulta da soma das influências culturais
que recebeu durante toda a vida, podemos identificar na música de Heitor
Villa-Lobos quatro elementos particularmente significativos: as viagens, a
música popular do Brasil, a formação erudita e a cultura
nativa brasileira.
Tais elementos refletem-se na figura do artista, desdobrando-o em quatro papéis
que usaremos como mote da nossa abordagem:
O
viajante
Não obstante o apego pela mãe, o desejo de Villa-Lobos de conhecer
a música do Brasil levou-o a percorrer imensas distâncias aventurando-se,
tocando e principalmente, registrando as formas musicais espontâneas
que encontrava pelo caminho, num trabalho de pesquisa meticuloso que resultou
em inúmeras composições memoráveis e também
no Guia Prático - uma grande coletânea para canto solo
e acompanhado.
Este aspecto de sua biografia - pesquisa da música e cultura brasileiras
in loco, assim como sua participação na tumultuada Semana
de 22, evento-marco do Modernismo no Brasil - aproxima Villa-Lobos de outra
grande figura do universo artístico brasileiro. Você
saberia dizer de quem estamos falando?
| VOCÊ
SABIA
que uma das primeiras
composições musicais do maestro foi feita para violão,
aos 13 anos de idade, com o nome de Panqueca? E que, infortunadamente,
a partitura perdeu-se e com ela a melodia histórica? |
De
fato, as trajetórias do poeta e musicólogo Mário de Andrade
e do músico e compositor Heitor Villa-Lobos se aproximam, assim como
alguns traços de personalidade.
As viagens de Villa-Lobos pelo Brasil, custeadas pela venda dos livros da biblioteca
herdada do pai, cobriram Espírito Santo, Bahia e Pernambuco (1ª
viagem); Sul do Brasil, com estadia no Paraná (2ª viagem); São
Paulo, Goiás e Mato-Grosso (3ª viagem); novamente Pernambuco,
mais Ceará e Pará (4ª viagem), e regresso ao Rio de Janeiro,
sua cidade natal.
O músico popular
Villa-Lobos sabia o que queria, mas sua mãe não pensava assim
.
Pobre
Dona Noêmia! Se até nos dias de hoje a idéia de ter um
filho músico tira o sono de muitos pais, o que dizer no começo
do século, quando o preconceito era muito mais arraigado. Na época,
sequer existia a possibilidade de um artista cair nas graças do show
business, simplesmente porque não havia uma indústria de
consumo cultural como a que conhecemos hoje.
Traduzindo: nenhum músico popular poderia ter a pretensão de
viver da sua arte, restando-lhe a possibilidade de arrumar um emprego público
para, só então, com algum tempo livre, dedicar-se a dominar
um instrumento e freqüentar as rodas de choro e seresta.
Esta era a única forma de um músico popular proteger-se do rótulo
de vagabundo, boêmio e outros adjetivos que ainda são associados
à sua figura na tradição cultural brasileira.
Por esse motivo, se o jovem Heitor Villa-Lobos quisesse aprender os segredos
dos virtuoses de rua do Rio de Janeiro, entre uma aula e outra do curso de
Medicina, que ele nunca concluiu, precisava evadir-se sorrateiramente. As
coisas só melhoraram um pouco pelo fato de ele nunca ter abandonado
o estudo da música erudita, esta considerada séria e muito mais
respeitada que a arte dos seresteiros e chorões. Assim, ligeiramente
acima do violão - companheiro de noitadas inesquecíveis - Villa-Lobos
colocou o violoncelo, síntese da expressividade da música clássica.
Curiosamente, o sucesso internacional de Villa-Lobos deve-se, segundo muitos
estudiosos, à maneira única como ele aplicou as regras de composição
clássicas aos elementos mais populares da nossa cultura.
Um bom exemplo para ilustrar a afirmação é a Suíte
Popular Brasileira, série de peças para violão solo,
obrigatórias no repertório dos violonistas eruditos, que receberam
nomes sugestivos derivados das danças européias como mazurka-choro,
scottish-choro, valsa-choro, gavota-choro, culminando com um singelo Chorinho.
VOCÊ
SABIA
que o termo choro
designa não um ritmo, mas um jeito de se tocar as modinhas, lundus
e outros ritmos que predominavam na música brasileira na passagem
do século XIX para o XX?
A este primeiro caráter lamentoso e plangente do choro, apoiado
em vibratos, trêmolos, pausas expressivas e rubatos, viriam se somar
o improviso e a formação camerística de instrumentos
portáteis, com destaque para o violão, elementos que caracterizariam
o gênero choro quando da sua consolidação em meados
do século XX. |
O maestro
Não apenas para agradar o pai, enquanto vivo, ou tranqüilizar
a mãe, preocupada com seus hábitos musicais, mas para cumprir
sua meta irrevogável, Villa-Lobos dedicou-se obsessivamente ao estudo
e domínio das técnicas eruditas de composição,
orquestração e execução musical.
Talvez porque não tivesse paciência suficiente para submeter-se,
depois de adulto, a professores e métodos rígidos de aprendizado
musical, o maestro ficou célebre por seu autodidatismo.
Como são escassos os registros de suas peformances instrumentais -
geralmente
gravações
caseiras tocando músicas ao violão ou ao violoncelo - os juízos
sobre seu talento interpretativo são controversos.
Quanto a sua qualidade de regente, poucos se atreveriam a questioná-la,
perdendo-se a conta de suas apresentações na Europa, América
Latina e Estados Unidos, sempre muito bem recebidas por exigentes platéias.
No seu caso, vale dizer ainda que, dificilmente, algum regente poderia expressar,
com mais autoridade e precisão as nuanças interpretativas tais
como as concebera ele próprio na composição das obras.
De qualquer forma o maestro era dotado de invejável ouvido musical,
o que lhe possibilitava compor ouvindo rádio e conversando com interlocutores,
como atestam diversos depoimentos. Ao que parece, ele se sentia muito à
vontade para escrever música em meio a um brainstorm de ruídos
e atividade.
| VOCÊ
SABIA
que, segundo músicos
que o conheceram, Villa-Lobos desaprovava muitas das interpretações
de suas obras por orquestras européias, que insistiam em tocar
as notas do jeito como estão escritas, o que lhes dava um caráter
demasiadamente quadrado ou certinho? Poderíamos dizer, que faltava
- e ainda falta, em grande medida - aos músicos estrangeiros o
jeitinho brasileiro de tocar |
O brasileiro
Villa-Lobos foi, sem dúvida, o maior expoente do movimento chamado
"Nacionalismo Musical". Ainda que Alexandre Levy (1864-1892) e Alberto
Nepomuceno (1864-1920) o tenham precedido no tempo, nunca tiveram a mesma
projeção nacional e internacional.
O Movimento Nacionalista originou-se na Europa, na esteira do Romantismo,
e como corrente estética primava pela pesquisa, resgate e exaltação
dos elementos regionais e populares através da cultura erudita - fosse
na literatura, nas artes plásticas ou na música.
Estão incluídos nesse movimento uma série considerável
de compositores dos séculos XIX e XX, dos quais podemos citar Stravinsky,
Moussorgsky, Dvorak, Bártok, Kodályi, todos europeus, e ainda
o mexicano Revueltas e o argentino Ginastera, além de muitos outros.
Está de certa forma implícito, na orientação nacionalista,
um cuidado especial para com a educação musical popular, uma
vez que só se fortalece uma cultura apresentando-lhe suas próprias
características esquecidas ou relegadas ao segundo plano.
Foi o que fez Villa-Lobos, a exemplo de seus contemporâneos Zoltan Kodály
(Hungria, 1882-1967) e Carl Orff (Alemanha, 1895-1984), compositores com preocupação
didática.
Nomeado para presidir a Superintendência de Educação Musical
e Artística da cidade do Rio de Janeiro, Villa-Lobos teve de renunciar
seu regresso a Paris, onde pretendia residir.
Em compensação, viu crescer seu prestígio à medida
em que conseguiu implementar um ambicioso plano de musicalização
infantil na rede pública, com o uso intensivo de seu Guia Prático
e da técnica do Manosolfa, na qual cada nota musical é
representada por uma diferente combinação dos dedos de ambas
as mãos.
A nomeação de Villa-Lobos não foi casual: politicamente,
o governo de Getúlio Vargas necessitava de um "arrimo cívico",
que abrandasse as dissidências ideológicas e assegurasse o envolvimento
da população em um projeto nacionalista.
A contribuição de Villa-Lobos veio na forma de grandes concertos
ao ar livre em que grupos imensos de estudantes (orfeões) executavam
obras do maestro, além é claro, do Hino Nacional Brasileiro.
A preocupação de Villa-Lobos com a correta entonação
e a dicção com que nosso hino deveria ser executado atingiu
uma dimensão quase legendária.