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Pedro Bandeira
Imagem decorativa Andando em linha reta

Eu tinha dois anos de idade, mas nem tudo o que aconteceu baseia-se apenas no que os adultos da época me contaram tempos depois. Alguns detalhes, espoucando como flashes , ainda estão em minha memória. Gozado como tem coisa distante registrada lááá no fundo... Há até neurologistas que dizem que, até mesmo antes de nascer, as crianças participam do mundo, ouvindo e sentindo, mas isso já é outra história.

Esta daqui começa com minha volta para casa de algum lugar para onde havia ido com algum adulto. E voltava fascinado pela vitrina de uma loja de brinquedos pela qual havíamos passado. Para qualquer criança não há nada mais atraente do que vitrina de loja de brinquedos, embora, depois de grande, a gente goste mesmo é de parar à frente das de papelarias, aquelas cheias de lápis, pastéis e creions de múltiplas cores, borrachinhas coloridas, estojos, caixinhas, cadernos e bugigangas que, se a gente entrar e comprar alguma delas, perde-se toda a graça. Isso porque vitrina de livraria não atrai nada, pois lá só se encontram geralmente os livros que o livreiro quer vender, mas que a gente não quer ler. Os bons mesmo ficam escondidos e têm de ser descobertos escavando-se feito garimpeiro, até encontrar um diamante no meio do entulho.

Mas, como eu só tinha dois anos, era com vitrina de brinquedos mesmo que eu me fascinava. Por isso, quando voltamos para casa, lá fui eu falar da descoberta daquela maravilha para um menino da minha idade, um vizinho chamado Maurinho. Minha casa ficava perto da praia, no bairro do Boqueirão, (praia da cidade de Santos, no litoral de São Paulo) e, para mim, a tal loja de brinquedos ficava “logo ali”, a alguns passos. Devo ter falado com tal entusiasmo para o amiguinho que, quando o convidei para visitar a loja, ele aceitou na mesma hora.

E lá fomos nós, pela avenida da praia, em busca da loja de brinquedos.

Bem, até hoje meu senso de orientação ainda não é dos melhores e aos dois anos devia ser pior ainda. É claro que a tal loja não ficava “logo ali” e nem sei onde ficava. Assim, levei o desavisado menino a andar sem rumo nem sei por quanto tempo.

Naturalmente, o pânico instalou-se nas duas casas, na minha e na do Maurinho.

Duas crianças perdidas!

Talvez raptadas!

O Pedrinho e o Maurinho!

Desespero, berros, choros, arrancares de cabelo...

Logicamente a polícia foi mobilizada e em três tempos atendeu ao chamado.

Soube depois que, experientes, os policiais informaram que, se o caso não fosse de rapto, mas simplesmente de crianças andando a esmo, a tarefa de nos encontrar poderia ser facilitada, pois, segundo eles, “criança só anda em linha reta”. Criança não vira esquina. Hoje fico pensando: onde os policiais haviam descoberto tal teoria? Será que era tão comum assim crianças de dois anos saírem sozinhas a passeio? Será que as vitrinas das lojas de brinquedos daquela época eram assim tão atraentes?

Sei lá. Só sei que, sob essa orientação, foram organizados dois grupos de busca, um andando pela calçada da praia em direção ao Gonzaga (praia de Santos, SP) e outro em direção à Ponta da Praia (praia de Santos, SP).

E não deu outra: lembro-me perfeitamente do surgimento, como por encanto, de um guarda fardado a nossa frente. O guarda sorria e abria os braços em nossa direção. Mas o Maurinho assustou-se! Fez meia-volta e correu desabalado, só para cair nos braços de um outro policial, que nos cercava por trás. Eu não. O sorriso do guarda deve ter sido mesmo acolhedor e, para mim, eu não estava perdido coisa nenhuma.

Pois é. Fomos encontrados porque andamos sempre em linha reta.

Será que, ao longo da vida, continuamos andando em linha reta, sempre? Ou a estrada que escolhemos é cheia de esquinas, de cotovelos, de descaminhos como um labirinto? Às vezes a gente se sente mesmo perdido nas armadilhas de algum labirinto, sem saída, sem esperança, e raramente nos aparece alguém simpático, de braços abertos, sorrindo, para nos resgatar. Mas talvez não seja melhor a gente arriscar, dobrar esquinas, atravessar becos, enfrentar desvios, mesmo que às vezes a gente se sinta perdido?

Será que, no fim, vamos encontrar a loja de brinquedos?

Pedro Bandeira