Reservatórios de esperança construídos com solidariedade e inteligência
Nos últimos três anos, o Brasil conseguiu construir mais de 100 mil cisternas, capazes de armazenar cerca de 1,5 bilhão de litros de água, na região em que ela mais faz falta, o semi-árido brasileiro, na região Nordeste.
A idéia é simples: coletar a água da chuva depois que cai nos telhados e armazená-la em grandes caixas de água feitas de cimento para usar no período da seca. A meta dos brasileiros envolvidos nesse projeto é construir 1 milhão de cisternas até o ano de 2010.
Apesar de ser um dos principais projetos do Programa Fome Zero, do ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o Projeto de Cisternas não foi uma iniciativa do governo, mas da sociedade civil organizada.
Projeto Cisternas do Programa Fome Zero. Os grandes períodos de
estiagem no Nordeste podem ter seus problemas amenizados por meio de
cisternas, reservatórios que captam e armazenam a água das chuvas.
Iconografia Moderna
Ele foi concebido pela Articulação no Semi-Árido (ASA), uma união de 700 instituições não-governamentais, criada em 1999. O primeiro parceiro da ASA a fornecer o dinheiro para a construção de cisternas foi a Federação Brasileira de Bancos, a Febraban e as primeiras cisternas foram feitas em 2000. A partir de então, novos parceiros foram surgindo.
O programa 1 Milhão de Cisternas faz parte do Programa de Formação e Mobilização Social para Convivência com o Semi-Árido da ASA. A entidade espera atingir a meta até julho de 2008.
Cada cisterna custa em média R$ 1.500,00 (material, agentes, treinamento etc), mas esse valor deverá diminuir com o tempo. O custo final do projeto é calculado em R$ 1 bilhão.
A importância do projeto
A construção de caixas de água semi-enterradas no solo (como as cisternas), para armazenar água no período de chuvas e utilizar na seca, é uma das melhores formas de atender às famílias que vivem em regiões secas.
O Semi-Árido brasileiro abrange uma área de 868 mil km 2, que vai do norte dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo até o sertão nordestino (Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí) e sudeste do Maranhão.
Segundo a Febraban, estima-se que vivam aproximadamente 8 milhões de pessoas na área rural dessa região, o que a torna o semi-árido mais populoso do mundo.
Nessa região chove em média 700 a 750 milímetros por ano e a maior parte dessa água se perde por evaporação. A solução mais antiga utilizada — a construção de açudes — ajuda, mas não é a ideal: dispersas em casas na imensidão do agreste, as pessoas perdem horas caminhando para conseguir chegar até a água.
Como a maior parte da água do açude se evapora, no final do estio o que sobra é uma água lamacenta, que é disputada por pessoas e animais, e que, por isso, transmite inúmeras doenças.
Armazenada numa caixa fechada no quintal da família, a água quase não evapora. Os próprios moradores cuidam dela e podem mantê-la limpa. Segundo a Febraban, com apenas 200 mm de chuva por ano é possível garantir água suficiente, para beber e cozinhar, a uma família de cinco pessoas.
A Federação dos Bancos enumera as vantagens: em uma única comunidade da Bahia, 100% dos habitantes possuíam verminose e, depois da instalação de cisternas o número de contaminados caiu para 7%.
Além disso, cada família economiza, em média, 2 horas de caminhada; passa a não depender tanto de caminhões pipa do governo; e pode até criar alguns animais e cultivar alimentos. Outra vantagem: a água da chuva não contém sais e não saliniza o solo.
O projeto também serve para conscientizar a população quanto a problemas de higiene e saúde, meio ambiente e cidadania.
Como são feitas e como funcionam
De acordo com o ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o modelo de cisterna que está sendo utilizado foi inventado na década de 1960 por um pedreiro da cidade de Simão Dias, em Sergipe, chamado Manoel Apolônio de Carvalho, que ficou conhecido com Nel.
Ele substituiu os tijolos por placas de cimento pré-moldadas e concebeu uma cisterna redonda, na qual a pressão da água diminui e evita rachaduras. Uma calha instalada ao redor de todo o telhado conduz a água a um só canto, de onde um cano a conduz até a cisterna. Antes de ser armazenada, ela passa por peneiras para retenção de folhas e outras sujeiras.
A cisterna é construída com cimento seco em moldes de madeira. Depois de montada, ela é amarrada com arame galvanizado e recebe acabamentos interno e externo. Uma parte fica enterrada no solo, para manter a água fresca, e a outra fica acima do chão, tampada.
Os agentes do Programa dão treinamento e materiais e ensinam os próprios moradores a construir suas cisternas.
Idéias e projetos como esse são chamados de tecnologias sociais: formas simples e baratas de promover a inclusão social e combater ou minimizar a pobreza, as doenças e outros problemas.
A Fundação Banco do Brasil mantém um concurso bienal em que recebe, premia e custeia as melhores invenções — como das cisternas. Todas as tecnologias inventadas e inscritas ficam disponibilizadas num banco de dados no site da instituição, para quem quiser se informar sobre eles ou mesmo utilizá-los. Nos Estados Unidos, a Fundação Ford faz o mesmo.
Links
Associação Brasileira de Captação e Manejo de Água de Chuva (membro da ASA): http://www.abcmac.org.br; http://www.asabrasil.org.br
Dados sobre a região e o projeto da Federação dos Bancos: http://www.febraban.org.br/arquivo/destaques/destaque-fomezero_cistermas.asp
Programa Fome Zero: http://www.fomezero.gov.br/
Site oficial de Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil, que inclui cisternas: http://www.tecnologiasocial.org.br