A edição de março de 2004 da revista Mundo – Geografia e Política Internacional é dedicada ao exame da nova política externa brasileira. Uma das matérias que será publicada nessa edição é reproduzida a seguir. Recomenda-se o seu uso em sala de aula.
Rumos da política externa brasileira
Celso Amorim foi
ministro das Relações Exteriores (chanceler), pela primeira vez,
no governo interino de Itamar Franco (1992-94). Na época, a ONU preparava
as celebrações do seu cinqüentenário e abria discussões
sobre a reforma do Conselho de Segurança (CS). Amorim aproveitou a ocasião
para propor uma ampla reformulação do órgão e, paralelamente,
lançou a candidatura brasileira a uma cadeira de membro permanente.
Aquele debate não deu em nada. Washington favorecia uma reforma limitada
à inclusão de Japão e Alemanha entre os membros permanentes,
mas não se dispunha a abrir a caixa de Pandora da qual poderia sair um
CS com Índia, Brasil e algum país africano. No fim, a hiperpotência
optou por conservar a velha composição do órgão,
com seus cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha,
França e China), que reflete os resultados da Segunda Guerra Mundial.
Os chanceler do governo FHC, Luiz Felipe Lampreia e Celso Lafer, continuaram
a defender, protocolarmente, a reforma do CS mas congelaram a candidatura brasileira.
O retorno de Amorim à chancelaria, no governo Lula, assinalou a ressurreição
do tema. O Brasil hasteou de novo a bandeira da ampliação do CS
e atirou-se numa campanha estridente e entusiasmada por um lugar entre os membros
permanentes.
A candidatura brasileira é uma obsessão pessoal do chanceler.
Mas, para além disso, tornou-se o eixo organizador da política
externa do governo Lula. Em nome dessa prioridade estratégica, o Itamaraty
assume os riscos da inconseqüência, pois a ONU não recolocou
o tema da reforma do CS na sua agenda oficial, e da impertinência, pois
a Argentina, um parceiro estratégico, rejeita explicitamente a pretensão
brasileira.
A tradição principal da política externa brasileira, estabelecida
pelo Barão do Rio Branco, organiza-se em torno da aliança estratégica
com os Estados Unidos e tem por foco a esfera da América do Sul. Lampreia
e Lafer, cada um a seu modo, trilharam caminhos inscritos nessa tradição.
A parceria com a Argentina, a construção e ampliação
do Mercosul e o diálogo prioritário com os Estados Unidos consumiam
os esforços do Itamaraty. O resto era periférico, ainda que importante.
O governo Lula tem outra bússola externa. Essa bússola aponta
para dois nortes. O primeiro é a noção de Brasil-Potência,
que tem fundas raízes no imaginário nacional mas ganhou contornos
contemporâneos com a geopolítica militar e a política externa
dos generais-presidentes Garrastazu Médici (1969-74) e Ernesto Geisel
(1974-79). O segundo é a noção de Terceiro Mundo, elaborada
nas décadas de 50 e 60, sob o influxo da descolonização
afro-asiática e do Movimento dos Países Não-Alinhados.
O Brasil-Potência deve ocupar o seu lugar nas relações internacionais.
Esse lugar pressupõe a "liderança natural" da América
do Sul mas não se circunscreve ao subcontinente. A vocação
histórica brasileira, o seu "destino", é participar
das grandes decisões globais.
O Terceiro Mundo, hoje, é o Sul. O conjunto heterogêneo dos países
em desenvolvimento tem reivindicações comuns, especialmente nos
terrenos do comércio e do combate à pobreza. O Brasil deve assumir
uma posição de destaque no diálogo Norte-Sul, recuperando
temas e discursos dos tempos da Política Externa Independente (PEI),
nos governos Jânio Quadros (1961) e João Goulart (1961-64).
Quadros condecorou o líder cubano Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro
do Sul e enviou seu vice, Goulart, em missão comercial à China.
Na presidência, Goulart estabeleceu relações diplomáticas
entre o Brasil e a União Soviética e o Itamaraty assumiu papel
destacado no Grupo dos 77 (uma articulação do Terceiro Mundo)
nas conferências das Nações Unidas sobre comércio
e desenvolvimento (Unctad).
A ditadura militar rompeu com a PEI, rejeitando as suas ressonâncias "esquerdistas".
Mas, ao contrário do que reza a lenda, o giro não resultou no
alinhamento automático com Washington. Sob Médici, o Brasil recusou-se
a assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).
Sob Geisel, confrontou os Estados Unidos assinando o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha,
que procurava dotar o país de capacidades estratégicas independentes.
A política externa de Lula atualiza essas linhas de força, adaptando-as
ao pós-Guerra Fria e à globalização. As críticas,
claras e constantes, à ocupação americana do Iraque refletem
uma tentativa de combater a unipolaridade no cenário mundial. A formação
do Grupo dos Três (G-3, ou IBAS: Índia, Brasil e África
do Sul) destina-se a criar um ponto de referência político para
o Sul, além de reforçar a campanha pela reforma do CS. O G-20,
uma articulação de países em desenvolvimento nas negociações
da Organização Mundial de Comércio (OMC), tem como inspiração
óbvia o velho Grupo dos 77.
A diplomacia presidencial desempenha funções cruciais na política
externa do governo Lula. O presidente visitou Cuba, onde confraternizou com
Fidel Castro, percorreu a África Subsaariana, estreitando relações
com a África do Sul, e aventurou-se pelos países árabes,
numa turnê cujo ponto alto foi a recepção oferecida pelo
ditador líbio Muammar Kadafi. As viagens emitiram sinais de autonomia,
provocando alguma irritação em Washington. Mas, pragmaticamente,
evitaram um choque frontal: Lula não discursou na Praça da Revolução,
em Havana, e rodeou a Palestina, para não se encontrar com Yasser Arafat.
Na moldura da política externa de Lula, o foco deslocou-se da América
do Sul para o Terceiro Mundo. Apesar das juras oficiais, repetidas como um mantra,
o Mercosul perdeu o lugar prioritário que ocupava no governo FHC.
É verdade que a bandeira da integração sul-americana tremula
alta no mastro de Amorim e que Lula desdobrou-se em visitas aos países
vizinhos. Também é verdade que o Brasil organizou um Grupo de
Amigos da Venezuela, tentando estabilizar o governo de Hugo Chávez, enviou
um emissário para mediar a crise institucional boliviana no final de
2003 e sugeriu hospedar negociações de paz entre o governo colombiano
e a guerrilha das Farc. Mas o impulso rumo à integração
multilateral da América do Sul - que alcançou o zênite na
Conferência de Brasília promovida por FHC em 2000 - parece ter
se esgotado.
Atrás das dificuldades na América do Sul está a América
do Norte e, em particular, o dragão da Alca. De um lado, esse desafio
divide o governo Lula. De outro, separa o Brasil da maior parte dos países
sul-americanos.
No PT - mesmo no atual PT, manietado pelo Palácio do Planalto - a Alca
é quase um tabu. No Itamaraty reorganizado por Amorim, o segundo posto
hierárquico, a Secretaria-Geral, é ocupado por Samuel Pinheiro
Guimarães, um crítico feroz - embora, nos últimos tempos,
silencioso - da Alca. Por outro lado, os ministros da Fazenda, Antonio Palocci,
da Agricultura, Roberto Rodrigues, e do Desenvolvimento, Indústria e
Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, defendem mais ou menos abertamente
a área hemisférica de livre comércio.
A estratégia do Brasil nas negociações da Alca reflete
as divisões internas mas, sobretudo, o compromisso geopolítico
assumido por Lula na sua visita a George Bush, em 2003. Na ocasião, o
presidente assinou uma declaração que reafirma a disposição
de concluir o tratado hemisférico até o final de 2004. Depois
disso, os negociadores brasileiros procuraram bloquear a costura de um acordo
ambicioso, abrangendo investimentos externos, intercâmbio de serviços,
compras governamentais e patentes. Mas Washington reagiu agressivamente, firmando
acordos bilaterais e ameaçando isolar o Brasil e a Argentina.
Lula e Amorim apostam alto na nova política externa brasileira. Se ganharem,
quebram a banca. Se perderem, o Brasil quebra a cara.