Alca, Mercosul e Brasil
"A Alca é
uma opção; o Mercosul, destino". A sÃntese é
de Celso Lafer, ministro do Exterior que substituiu Lampreia, no final do segundo
mandato de Fernando Henrique Cardoso (1999-2002). Lafer jamais escondeu a sua
inclinação pela Alca, muito mais pronunciada que a do antecessor
ou do sucessor, Celso Amorim. Mas mesmo ele estabeleceu essa forte distinção
entre o lugar da Alca e o do Mercosul na visão de mundo do Brasil.
O Mercosul é destino? A argumentação passa pela geografia.
Brasil e Argentina compartilham o Cone Sul e, em especial, a bacia platina. As
guerras do século XIX estabeleceram fronteiras polÃticas entre os
dois paÃses, desenhando nesse processo os contornos do Uruguai e do Paraguai.
Essas fronteiras não são "naturais", pois recortam transversalmente
a rede hidrográfica, separando o estuário (na Argentina e Uruguai)
do alto curso dos rios (no Brasil). As faixas de fronteiras apresentam densidade
demográfica e econômica significativa, constituindo corredores de
fluxos de mercadorias e pessoas.
Brasil e Argentina só têm duas alternativas históricas. A
primeira é a rivalidade e uma prolongada disputa pela hegemonia regional.
A segunda, a aliança estratégica. No passado, os dois Estados desenvolveram
a rivalidade, alternando perÃodos de limitada cooperação
com outros de tensa confrontação. O Mercosul representou a opção
pela aliança estratégica.
A rivalidade, nas condições de relativa sofisticação
econômica e tecnológica dos dois paÃses, tendia a empurrar
as relações bilaterais para o perigoso estágio da corrida
armamentista. Na década de 70, Brasil e Argentina chegaram a se engajar
nas etapas iniciais de programas nucleares com finalidades bélicas. A opção
pela aliança estratégica foi uma escolha polÃtica que reverteu
dramaticamente essa espiral descendente. Os programas nucleares foram encerrados
e estabeleceu-se, oficialmente, uma zona de paz e cooperação regional.
A reviravolta refletiu o novo ambiente gerado pelo globalização
e, também, a disparidade crescente entre o poder econômico e demográfico
dos antigos rivais platinos. Brasil e Argentina enxergaram no Mercosul a oportunidade
para uma inserção mais favorável na economia mundial globalizada.
Ao mesmo tempo, o tamanho da economia e do mercado interno brasileiros evidenciavam,
cada vez mais, a ausência de sentido de uma disputa pela hegemonia regional.
O Mercosul foi conduzido pelos governos como projeto de integração
quase exclusivamente comercial. Diplomatas e a comunidade de negócios engajaram-se
nos grupos de trabalho do bloco regional, mas os demais atores sociais - sindicatos,
ONGs, instituições educacionais, cientÃficas e culturais
- tiveram participação apenas marginal nas discussões e decisões.
Apesar das crÃticas de diversos intelectuais, que acentuavam a importância
de desenvolver as potencialidades culturais do bloco regional, os governos insistiram
na rota exclusiva da economia.
Na Argentina, o Mercosul logo tornou-se um foco central do debate polÃtico,
em virtude da condição de principal parceiro comercial alcançada
pelo Brasil. Nos sócios menores - Uruguai e Paraguai - ocorreu processo
semelhante, que se associou à tradicional dependência econômica
de ambos em relação aos grandes vizinhos. Para os argentinos, uruguaios
e paraguaios, independente das suas virtudes polÃticas, o Mercosul possui
valor econômico e comercial de primeira ordem. Mas mesmo no Brasil, embora
em menor escala, o projeto do Mercosul experimentou enraizamento polÃtico
e social significativo.
Numa conferência proferida em 1997 perante o Conselho Argentino de Relações
Internacionais, o ministro Lampreia assinalava:
É fundamental que cada vez mais nossas sociedades assumam o Mercosul
e a relação estratégica entre o Brasil e a Argentina como
fatores fundamentais em uma mudança verdadeira de perspectivas para os
dois paÃses. Que saibamos ver o outro como parte de nosso interesse mais
essencial, como eixo de nossa própria inserção no resto do
mundo. E que possamos gerar, em bases duradouras, essa cultura de integração
que significará o passo definitivo de nossa região, e de nossos
paÃses em particular, a uma nova etapa de seu desenvolvimento histórico.
(Luiz Felipe Lampreia, Diplomacia brasileira: palavras, contextos
e razões, Rio de Janeiro, Lacerda, 1999, pág. 178).
A Alca ocupa um lugar diferente. A sua finalidade não é a formação
de um mercado comum, mas apenas a constituição de uma zona de livre
comércio. Ao contrário do Mercosul, que se alicerça na relação
bilateral Brasil-Argentina, a Alca envolve a relação entre os Estados
Unidos, de um lado, e todos os demais paÃses das Américas, do outro.
Mas a Alca não é uma opção como qualquer outra. É
uma definição histórica e estrutural das relações
do Brasil com os Estados Unidos e da inserção brasileira no sistema
internacional de Estados. O projeto da Alca é o eixo estratégico
da polÃtica de Washington para as Américas. A hipotética
recusa brasileira à Alca equivaleria a uma profunda ruptura na parceria
estabelecida por Rio Branco, que representou o alicerce da polÃtica externa
brasileira ao longo do século XX. Além disso, provavelmente isolaria
o Brasil - ou, no máximo, o Mercosul - no continente americano.
A diplomacia brasileira reconheceu, desde o inÃcio, a difÃcil encruzilhada
da Alca. O Itamaraty respondeu ao desafio deflagrando um processo de negociação
comercial em duas vertentes: Alca e União Européia. De um lado,
a dupla negociação serve para aumentar o poder de barganha do Mercosul.
De outro, ao menos em tese, a Europa poderia representar um parceiro alternativo
aos Estados Unidos. Mas o protecionismo agrÃcola europeu, ainda mais arraigado
que o norte-americano, tem funcionado como obstáculo aparentemente intransponÃvel
para o avanço dessa vertente da negociação.
A Europa poderia substituir os Estados Unidos no plano puramente comercial mas,
enquanto um acordo com a União Européia teria apenas significado
econômico, a Alca tem uma dimensão geopolÃtica inegável,
ainda que implÃcita. A participação brasileira num bloco
comercial das Américas contribuiria para acentuar a influência do
paÃs nas decisões de organismos financeiros hemisféricos
(como o BID) e de organismos de segurança regional (como a OEA). Em sentido
contrário, ficar de fora da Alca implicaria desistir da boa vontade da
hiperpotência nos assuntos relacionados à geopolÃtica do "Hemisfério
Americano".
O diplomata Samuel Pinheiro Guimarães foi a primeira voz, no Itamaraty,
a expressar uma oposição de princÃpio à Alca, gerando
uma crise polÃtica durante a gestão de Celso Lafer. Refletindo a
opinião majoritária entre analistas de esquerda e nacionalistas,
o diplomata estruturou seu argumento em torno das desvantagens competitivas das
empresas brasileiras frente às norte-americanas. Enfatizou que os compromissos
ligados ao livre comércio, aos serviços, aos investimentos e à s
patentes que devem constar do tratado da Alca limitariam ao extremo as possibilidades
de intervenção do Estado na economia brasileira. No fundo, de acordo
com esse raciocÃnio, seriam extintos os instrumentos de planejamento nacional
do desenvolvimento econômico.
O economista Celso Furtado, na mesma vertente, alertou para os riscos de uma "recolonização
econômica", que se traduziria por um retrocesso da base industrial
nacional e uma dependência ainda mais acentuada de capitais e tecnologias
externas. Na sua campanha à presidente, em 2002, Lula adotou essa linha
de argumentação, que foi sintetizada pela declaração
de que a Alca seria "uma proposta de anexação, não de
integração".
Os crÃticos do bloco hemisférico, de modo geral, apontam ainda o
caráter mutuamente excludente da Alca e do Mercosul. De fato, é
difÃcil imaginar como as regras preferenciais de uma união aduaneira
poderiam conviver com as regras gerais de uma zona mais ampla de livre comércio.
O tema da Alca ingressou, em definitivo, no debate nacional em 2002. Durante a
campanha para as eleições presidenciais, a CNBB encabeçou
a organização de um plebiscito de protesto contra a Alca, do qual
participaram milhões de pessoas. A identificação da proposta
da área hemisférica de livre comércio com a hegemonia dos
Estados Unidos tornou-se uma percepção bastante difundida na sociedade
brasileira.
Depois da vitória eleitoral, Lula frustrou os que esperavam a retirada
brasileira do projeto hemisférico. O novo chefe de Estado assegurou a Washington
que o Brasil compartilharia com os Estados Unidos, como previsto, a função
de presidente da etapa final de negociações. Essa decisão
revelou as dificuldades estratégicas de contrariar frontalmente a hiperpotência
mas, também, a força das correntes polÃticas e empresariais
que, no Brasil, defendem a incorporação à Alca.
Em 2003, a deflagração pelos Estados Unidos da segunda Guerra do
Golfo, contrariando a maioria do Conselho de Segurança da ONU, e a subseqüente
ocupação do Iraque, danos profundos à imagem mundial da hiperpotência.
No Brasil, como na maior parte do mundo, reforçou-se a percepção
de que a administração Bush conduz uma polÃtica agressivamente
neo-imperial. O conflito no Golfo Pérsico contribuiu para tornar menos
atraente o projeto da Alca.
O debate sobre a Alca acompanhará o governo Lula e tende a figurar no centro
da agenda polÃtica e diplomática brasileira dos próximos
anos. Nas democracias, as decisões cruciais de polÃtica externa
não podem ignorar a vontade da opinião pública. No caso do
bloco hemisférico, as opiniões divergentes refletem com bastante
nitidez os interesses conflitantes e as ideologias concorrentes que atravessam
a sociedade brasileira. A decisão entre a adesão à Alca ou
a recusa do bloco hemisférico terá impacto profundo sobre o lugar
polÃtico, econômico e estratégico do Brasil no mundo. Não
é uma decisão que possa ser entregue a especialistas ou tecnocratas.