Censo 2000 revela os órfãos do real
Regina Araújo
Os indicadores econômicos e sociais relativos ao Censo 2000, divulgados
recentemente, foram recebidos com certa perplexidade pela presidência
da República. De acordo com Fernando Henrique Cardoso, os dados que indicam
um notável aumento no consumo de bens duráveis e de serviços,
entre as famílias brasileiras, não combinam com aqueles que apontam
a estagnação da renda média dos seus membros. Em suas palavras
"ou não se consumiu tanto ou não se ganhou tão pouco".
De fato, se encarado pelo lado do aumento do consumo, o Censo pode se tornar
uma ferramenta poderosa de propaganda da política econômica da
era FHC. No setor de serviços, por exemplo, os grandes destaques foram
a telefonia e a iluminação elétrica. Entre 1991 e 2000,
houve um aumento de mais de 100% do número de linhas telefônicas
instaladas no país (embora 60% das residências brasileiras ainda
não estejam cobertas pelo serviço), o número de ligações
elétricas residenciais cresceu quase 40%, de forma a abranger mais de
90% dos domicílios nacionais. Já no setor de bens de consumo duráveis
a vedete foi o aumento do consumo de automóveis (ampliado em mais de
40%), mas a geladeira, o rádio, a televisão, e as máquinas
de lavar roupa também penetram em uma porcentagem significativa de novos
lares, para orgulho do presidente. Ora, se os brasileiros estão conseguindo
equipar suas casas e os serviços essenciais estão se disseminando,
é claro que a situação do país e de seu povo está
melhorando.
Infelizmente, as estatísticas sobre trabalho e renda mostram que não
há muito do que se orgulhar. Muito ao contrário, os dados sobre
o mercado de trabalho revelam uma verdadeira tragédia social: o IBGE
constatou que a população economicamente ativa (PEA) do Brasil,
ou seja, a parcela da população que estava ocupada ou procurando
emprego, era composta na ocasião do Censo por 76,1 milhões de
pessoas. Destas, apenas 64,7 estavam ocupadas. Isso significa que haviam 11,4
milhões de desempregados no Brasil, ou, dito em outras palavras, que
a taxa de desemprego no país girava em torno dos 15%, muito superior
aos 5% registrados pelo Censo de 1991. A explosão do desemprego, principalmente
entre os jovens, está intimamente relacionada com a violência crescente
dos principais centros urbanos do país. Além disso, entre os ocupados,
pelo menos 4,5 milhões de pessoas não eram remuneradas, provavelmente
trabalhavam em troca de alimento e moradia, na cidade ou na agricultura de subsistência.
A existência deste imenso contigente de desempregados e de trabalhadores
sem rendimentos puxa para baixo a taxa de renda média da população
economicamente ativa brasileira.
Mesmo considerando apenas aquelas pessoas que trabalhavam e recebiam rendimentos
na ocasião do Censo 2000, algo em torno de 60,2 milhões, os dados
também não são lá muito animadores. Cerca de 25%
delas ganhavam até um salário mínimo e 50% tinham rendimentos
inferiores a dois salários mínimos. Em valores atuais, isso significa
que metade da população trabalhadora empregada no Brasil ganhava
um salário inferior a R$400,00. No outro extremo apenas 2,6 milhões
de trabalhadores ganhavam acima de 20 salários mínimos. Assim,
a maioria dos brasileiros continuava convivendo com o fantasma da pobreza, mesmo
quando empregados.
Se for assim, como os brasileiros conseguiram ampliar o consumo de bens e serviços
entre 1991 e 2000? Uma tentativa de explicação, esboçada
pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, sustenta que os rendimentos reais dos
brasileiros podem ser maiores do que os valores captados pela estatística,
dada a importância da chamada economia informal no país. Assim,
são produzidos bens e serviços que não entram na conta
do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e parte da renda auferida pelos trabalhadores
acaba não sendo declarada. Baseado em raciocínio semelhante, o
próprio Fernando Henrique Cardoso sugeriu ao presidente do IBGE uma mudança
na metodologia do cálculo de renda, incorporando algum instrumental técnico
que permitisse aos recenseadores checar a veracidade da renda declarada pelos
indivíduos pesquisados.
Talvez ambos tenham razão, e haja mesmo alguma distorção
entre a renda média que aparece nas estatísticas censitárias
e a renda média auferida de fato pelos trabalhadores. Mas isso é
inevitável: afinal, são os brasileiros que produzem o seu próprio
retrato ao responderem às questões propostas pelos recenseadores.
Assim como acontece com a renda, todas as informações obtidas
pelo IBGE são baseadas nas declarações das pessoas pesquisadas.
No quesito "cor", por exemplo, as pessoas são livres para se
auto-identificar como pretos, pardos, brancos, amarelos ou indígenas.
Esse fato, inclusive, está na base de uma das novidades do Censo 2000:
houve um aumento da porcentagem de negros e a redução da porcentagem
de pardos na população brasileira, ocorrido porque um número
maior de pessoas se declarou "preta", afirmando suas raízes
culturais e sua identidade étnica. Entretanto, se a persistência
das mais variadas formas de racismo ajuda a entender por que muitos negros brasileiros
preferiram durante muito tempo se identificarem como "pardos", não
há razões fortes o suficiente para que um contingente significativo
de pessoas tenha omitido deliberadamente parte de seus rendimentos ao serem
questionadas sobre isso, já que as informações repassadas
são sigilosas e não podem ser utilizadas para efeitos fiscais.
Assim, as distorções, que porventura existam provavelmente,
não desautorizam uma conclusão óbvia a ser tirada dos dados
do Censo: o trabalhador brasileiro enfrenta uma grave crise de desemprego e
ganha em média muito pouco quando está empregado. O aumento do
consumo de determinados bens e serviços ocorreu apesar da estagnação
da renda, e existem diversas explicações possíveis para
este fato.
No caso da telefonia fixa, por exemplo, o extraordinário aumento no número
de domicílios atendidos se deu muito provavelmente porque o preço
das linhas telefônicas diminui consideravelmente ao longo da década.
Por seu turno, a elevação do consumo de bens duráveis parece
estar relacionada à redução do índice de inflação
que, no início da década de 1990, aumentou o poder de compra das
populações mais pobres sem que tenha havido uma elevação
nominal do seu rendimento. Além disso, o controle da inflação
também possibilitou a volta dos mecanismos de crédito, por meio
dos quais milhares de famílias passaram a gastar parcelas significativas
dos rendimentos auferidos pelos seus membros para equipar suas residências
"à prestação".
Os elevados índices de inadimplência, registrados no final da década
de 1990, comprovam que, mesmo com muito sacrifício, a renda das famílias
muitas vezes não foi suficiente para pagar essas contas, acrescidas de
taxas de juros escandalosas para os padrões internacionais, até
por que milhões de brasileiros perderam seus empregos ao longo da década.
Conforme revelam diversos estudos do Instituto de Pesquisas Econômicas
Aplicadas (IPEA), os impactos positivos do Plano Real e do controle da inflação
sobre o poder aquisitivo das camadas mais pobres se esgotaram rapidamente, mesmo
porque a inflação continuou existindo - ainda que em patamares
notadamente mais baixo - e não foi acompanhada pelos mecanismos de recomposição
salarial. Se estiverem corretos, estes estudos sugerem que os efeitos distributivos
do Plano Real, captados pelo Censo 2000 sob a forma de elevação
do consumo de determinados bens e serviços, são como a luz de
certas estrelas, que há muito estão apagadas quando chegam ao
observador.