A siderurgia no alto-forno da globalização
Os Estados Unidos são, de longe, o maiores importadores de aço
do mundo. Mas, no início de março, a administração
Bush estabeleceu um sistema que limita e regulamenta rigidamente as importações
siderúrgicas. O pacote protecionista está estruturado sobre cotas
e tarifas. Cada país só pode exportar uma cota definida de cada
tipo de produto siderúrgico para o mercado americano. E os produtos exportados
são onerados por tarifas variáveis que chegam a 30%, no caso dos
aços planos.
George Bush apresentou-se, na campanha eleitoral, como defensor inflexível
do livre comércio. Essa imagem já tinha sido seriamente arranhada
pelo conteúdo restritivo da Trade Promotion Authority (TPA), negociada
entre o presidente e o Congresso. A TPA é a lei que autoriza o presidente
a firmar acordos comerciais, como o da Área de Livre Comércio
das Américas (Alca).
De acordo com ela, a Alca só poderá existir se não mexer
no arsenal de medidas protecionistas unilaterais dos Estados Unidos e nos generosos
subsídios concedidos a seus agricultores. As restrições
ao livre comércio são tantas que os cínicos preferem denominá-la
"Trade Prevention Authority".
O pacote siderúrgico demoliu a retórica do livre comércio
da Casa Branca. Parceiros comerciais americanos não esconderam a indignação.
O Japão e a Coréia do Sul, grandes exportadores de aço,
apresentaram queixas junto à Organização Mundial de Comércio
(OMC). A Rússia, maior exportador mundial, que ainda não faz parte
da OMC, tenta reagir a prejuízos de até 400 milhões de
dólares anuais, bloqueando, sob esfarrapadas alegações
sanitárias, as importações de frango americano.
Mas, o eixo da "guerra do aço" encontra-se na reação
européia. A União Européia (UE), abriu processo contra
o pacote americano na OMC e, quase simultaneamente, estabeleceu o seu próprio
pacote protecionista, definindo cotas e sobretaxas que ficarão em vigor
por um mínimo de seis meses.
A siderurgia relocalizada
A "guerra do aço" é um fruto das tendências de
relocalização industrial impulsionadas pela globalização.
Nas últimas décadas, a estrutura industrial dos países
desenvolvidos foi profundamente transformada pela revolução tecnocientífica.
Os investimentos concentraram-se nas indústrias de alta tecnologia -
como as de informática, telecomunicações, aeronáutica
e biotecnologia. Enquanto isso, as indústrias tradicionais - baseadas
no uso intensivo de matérias-primas, energia e mão-de-obra - perdiam
espaço para concorrentes asiáticos.
A produção mundial de aço cresceu vertiginosamente ao longo
do séc. XX, mas entrou em estagnação há mais de
uma década. Em 1989, o total global atingiu 786 milhões de toneladas
métricas. Hoje, permanece mais ou menos no mesmo patamar. A estagnação
reflete a reorientação industrial promovida pela revolução
tecnocientífica.
Entretanto, a distribuição da produção siderúrgica
conheceu mudanças substanciais. Os países desenvolvidos, de modo
geral, perderam participação na produção global,
assim como a Rússia e a Ucrânia, que sofreram as conseqüências
econômicas devastadoras do colapso da União Soviética. Por
outro lado, a produção de países subdesenvolvidos asiáticos
- China, Coréia do Sul e Índia - experimentou forte incremento.
O maior salto foi o da China, que ultrapassou o Japão e os Estados Unidos
e se tornou, de longe, o maior produtor mundial.
Nos países desenvolvidos, a siderurgia integrada tradicional, que transforma
o minério de ferro em gigantescos fornos, perdeu competitividade em função
dos altos custos de produção. Na Europa e, num ritmo mais lento,
nos Estados Unidos as empresas ingressaram em processos de fusão e consolidação.
Ao mesmo tempo, as siderúrgicas integradas estão sendo fechadas
e substituídas por minissiderúrgicas que derretem sucata de aço.
A força de trabalho empregada foi reduzida drasticamente. Em 1974, os
países da atual UE, os Estados Unidos e o Japão tinham, em conjunto,
quase 2 milhões de trabalhadores siderúrgicos. Em 1990, o total
tinha se reduzido para menos de um milhão. Atualmente, gira em torno
de 600 mil.
A siderurgia integrada está se tornando uma especialidade de um grupo
de países subdesenvolvidos industrializados - China, Coréia do
Sul, Brasil e Índia. Nesses países, os custos de produção
mais baixos garantem a eficiência e a competitividade. Mas, a modernização
tecnológica também faz a sua parte: no Brasil, a siderurgia emprega
cerca de 63 mil trabalhadores, praticamente a metade dos 115 mil de 1990.
A relocalização global da siderurgia só não ocorre
mais rapidamente ainda em função do protecionismo, praticado pelos
países desenvolvidos. Nesse item, os campeões são os Estados
Unidos. Desde a década de 80, Washington impõe restrições
"voluntárias" às exportações siderúrgicas
de seus parceiros comerciais. Roberto Gianetti da Fonseca, secretário
executivo da Câmara de Comércio Exterior (Cacex), avalia que o
Brasil "poderia estar produzindo o dobro ou triplo do aço que produz
hoje" se não houvesse aceitado as tais restrições.
A siderurgia participa de um quadro mais amplo de reconversão econômica
global, que gera uma nova divisão internacional do trabalho. Os países
desenvolvidos especializam-se nas indústrias da revolução
tecnocientífica. E os países subdesenvolvidos industrializados,
nas indústrias oriundas de ciclos de inovação anteriores.
Os Estados Unidos e a União Européia têm definido as suas
políticas comerciais no contexto da reconversão econômica
global. De um lado, forçam a eliminação de barreiras para
os produtos de alta tecnologia. De outro, erguem muralhas de cotas e tarifas
para produtos das indústrias tradicionais, a fim de proteger as empresas
domésticas e, em certos casos, os resquícios de uma classe operária
em vias de extinção.
Proteção de mercado, quando o que está em jogo são
os produtos dos outros. Livre comércio? Isso é para os meus produtos.
O protecionismo de Bush
George Bush enfrenta um duro teste em sua reivindicação de
ser um presidente defensor do livre comércio. Antes de 6 de março,
ele deve decidir se impõe tarifas sobre as importações
de aço a fim de proteger a combalida indústria doméstica.
(...) Isso seria desastroso. Iria estraçalhar as relações
com parceiros comerciais no mundo inteiro, do Cazaquistão à Coréia
do Sul. As relações comerciais transatlânticas, que são
cruciais para o lançamento da rodada comercial de Doha, sofreriam estrago
considerável. (...) Se tudo isso não é suficiente, tarifas
sobre o aço também prejudicariam a economia americana (...). Os
Estados Unidos consomem mais aço do que produzem: os consumidores sofreriam
muito mais com as tarifas do que os produtores seriam beneficiados.
Essa foi a posição da revista The Economist, em editorial
publicado na sua edição de 2 de março, diante do dilema
enfrentado pela administração Bush. A Economist é
o órgão mais influente do pensamento liberal e, coerentemente,
uma defensora radical da globalização econômica. Seus argumentos
não foram ouvidos por Bush. Na edição seguinte, um editorial
trazia o título: "George Bush, protecionista".
Por que Bush deflagrou a "guerra do aço", colocando em risco
importantes relações comerciais americanas e a própria
rodada de negociações da OMC anunciada em Doha? Se os Estados
Unidos são grandes importadores de produtos siderúrgicos, que
servem como insumo para diversas indústrias nacionais, por que reduzir
a eficiência de todas essas indústrias? Qual é o sentido
de impor custos mais altos às indústrias nacionais, inclusive
a indústrias exportadoras, e aos consumidores americanos em geral? Afinal,
quais interesses estão por trás do pacote protecionista de cotas
e tarifas decidido pela Casa Branca?
Uma parte da resposta encontra-se na já conhecida tendência de
Bush de atender aos "interesses especiais" de grupos empresariais
influentes. A falência fraudulenta da Enron, uma corporação
gigantesca do setor energético, trouxe à tona as relações
escandalosas da administração, conduzidas pelo vice-presidente
Dick Cheney, com as empresas petrolíferas e termoelétricas - que
estão sendo beneficiadas por um generoso pacote de subsídios.
Depois dos atentados de 11 de setembro, as companhias de aviação
foram salvas da bancarrota por uma torrente de recursos públicos - e
mesmo assim fizeram cortes radicais de empregos.
Mas, as empresas siderúrgicas não têm, atualmente, grande
influência política. Os seus "interesses especiais" não
compensam, mesmo aos olhos de Bush, os danos políticos e econômicos
produzidos pelo pacote protecionista. A parte mais importante da resposta encontra-se
em outro lugar: o pacote de Bush destina-se a salvar uns poucos empregos, de
alto valor simbólico, na indústria siderúrgica.
A globalização e a revolução tecnocientífica
têm impacto profundo sobre as estruturas econômicas e de emprego,
em escala mundial. De um ponto de vista relativo, os empregos industriais estão
sendo transferidos dos países desenvolvidos para um grupo de países
subdesenvolvidos da Ásia.
Nos Estados Unidos, a participação da indústria na oferta
de empregos teve redução de cerca de 1/3 em menos de três
décadas. A Alemanha e a Itália, como os demais países da
Europa ocidental, conheceram reduções também significativas.
Até mesmo o Japão, o "país-fábrica", experimentou
alguma retração no emprego industrial. A imensa maioria dos empregos
eliminados pela automação e pela relocalização industrial
são de operários de indústrias tradicionais.
As indústrias que dependem da utilização intensiva de mão-de-obra
estão em declínio acelerado nos países desenvolvidos. Também
declinam na Rússia e nos países da CEI. Na antiga União
Soviética, a indústria pesada tradicional representou o eixo do
crescimento econômico socialista e chegou a empregar uma parcela imensa
da população ativa. Mas, as reformas econômicas liberalizantes
tiveram impacto devastador sobre fábricas assentadas em tecnologias antiquadas.
O emprego industrial apresenta estagnação relativa em países
em que a arrancada industrial começou há mais de meio século,
como o México e o Brasil. Mas, tendo em conta o rápido crescimento
da população ativa, esses países experimentam aumento do
emprego no Setor Secundário, em termos absolutos. Nada, contudo, que
se pareça com o que acontece na Ásia oriental e meridional, onde
as indústrias de trabalho intensivo beneficiam-se de baixos custos da
mão-de-obra. Na Indonésia, os empregos industriais eram cerca
de 4,5 milhões há trinta anos. Hoje, são 16,5 milhões.
Na China, passaram de 27 milhões para 150 milhões!
Os Estados Unidos não enfrentam crise de desemprego. Estruturalmente,
os empregos industriais eliminados são substituídos por empregos
no comércio e nos serviços. Conjunturalmente, mesmo com a recessão,
as taxas de desemprego giram em torno de 6%. Mas a siderurgia é um caso
especial, em função do seu valor simbólico.
A indústria siderúrgica está associada à noção
de poder. O aço serve para fazer blindados e grandes estruturas de engenharia.
As torres do World Trade Center estavam sustentadas por colunas de aço.
Os operários da siderurgia simbolizam, desde o séc. XIX, a classe
trabalhadora. O seu desaparecimento tem repercussões imaginárias
e emocionais profundas.
Na campanha eleitoral, Bush cercou-se de operários siderúrgicos
da Pensilvânia, num cenário de minas de carvão e altos-fornos,
e prometeu defender os seus empregos. Com esse gesto, procurava roubar os votos
dos trabalhadores industriais sindicalizados que, tradicionalmente, fluem para
o Partido Democrata. Mas, sobretudo, o gesto de Bush tentava associar a sua
imagem à da "nação profunda", que não
vive em Nova York ou Boston.
Os operários filmados e fotografados ao lado do então candidato
a presidente são um resquício da outrora numerosa categoria dos
trabalhadores siderúrgicos. O pacote protecionista não evitará
que, em alguns anos, quase todos também desapareçam, tragados
pela globalização econômica. No máximo, retardará
só um pouco o desenlace inevitável. Mas serve para o populismo
republicano que busca a união nacional em torno da "guerra contra
o terror".