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Projeto de ensino de geografia
 - Demétrio Magnoli e Regina Araújo
Imagem decorativaIntrodução
Há poucos meses, George Bush adotou um pacote de medidas protecionistas destinadas a defender as indústrias siderúrgicas dos Estados Unidos da competição estrangeira. O pacote de Bush deflagrou uma "guerra do aço", gerando retaliações da União Européia e protestos dos países subdesenvolvidos - inclusive do Brasil.
A "guerra do aço" é um sintoma das profundas transformações provocadas pela globalização sobre a siderurgia e outras indústrias tradicionais. Uma matéria, publicada em Mundo - Geografia e Política Internacional, na sua edição de maio de 2002, examina os sentidos da "guerra do aço", relacionando-os às tendências globais de recolocalização industrial.


A siderurgia no alto-forno da globalização

Os Estados Unidos são, de longe, o maiores importadores de aço do mundo. Mas, no início de março, a administração Bush estabeleceu um sistema que limita e regulamenta rigidamente as importações siderúrgicas. O pacote protecionista está estruturado sobre cotas e tarifas. Cada país só pode exportar uma cota definida de cada tipo de produto siderúrgico para o mercado americano. E os produtos exportados são onerados por tarifas variáveis que chegam a 30%, no caso dos aços planos.
George Bush apresentou-se, na campanha eleitoral, como defensor inflexível do livre comércio. Essa imagem já tinha sido seriamente arranhada pelo conteúdo restritivo da Trade Promotion Authority (TPA), negociada entre o presidente e o Congresso. A TPA é a lei que autoriza o presidente a firmar acordos comerciais, como o da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

De acordo com ela, a Alca só poderá existir se não mexer no arsenal de medidas protecionistas unilaterais dos Estados Unidos e nos generosos subsídios concedidos a seus agricultores. As restrições ao livre comércio são tantas que os cínicos preferem denominá-la "Trade Prevention Authority".

O pacote siderúrgico demoliu a retórica do livre comércio da Casa Branca. Parceiros comerciais americanos não esconderam a indignação. O Japão e a Coréia do Sul, grandes exportadores de aço, apresentaram queixas junto à Organização Mundial de Comércio (OMC). A Rússia, maior exportador mundial, que ainda não faz parte da OMC, tenta reagir a prejuízos de até 400 milhões de dólares anuais, bloqueando, sob esfarrapadas alegações sanitárias, as importações de frango americano.

Mas, o eixo da "guerra do aço" encontra-se na reação européia. A União Européia (UE), abriu processo contra o pacote americano na OMC e, quase simultaneamente, estabeleceu o seu próprio pacote protecionista, definindo cotas e sobretaxas que ficarão em vigor por um mínimo de seis meses.


A siderurgia relocalizada

A "guerra do aço" é um fruto das tendências de relocalização industrial impulsionadas pela globalização. Nas últimas décadas, a estrutura industrial dos países desenvolvidos foi profundamente transformada pela revolução tecnocientífica. Os investimentos concentraram-se nas indústrias de alta tecnologia - como as de informática, telecomunicações, aeronáutica e biotecnologia. Enquanto isso, as indústrias tradicionais - baseadas no uso intensivo de matérias-primas, energia e mão-de-obra - perdiam espaço para concorrentes asiáticos.

A produção mundial de aço cresceu vertiginosamente ao longo do séc. XX, mas entrou em estagnação há mais de uma década. Em 1989, o total global atingiu 786 milhões de toneladas métricas. Hoje, permanece mais ou menos no mesmo patamar. A estagnação reflete a reorientação industrial promovida pela revolução tecnocientífica.

Entretanto, a distribuição da produção siderúrgica conheceu mudanças substanciais. Os países desenvolvidos, de modo geral, perderam participação na produção global, assim como a Rússia e a Ucrânia, que sofreram as conseqüências econômicas devastadoras do colapso da União Soviética. Por outro lado, a produção de países subdesenvolvidos asiáticos - China, Coréia do Sul e Índia - experimentou forte incremento. O maior salto foi o da China, que ultrapassou o Japão e os Estados Unidos e se tornou, de longe, o maior produtor mundial.

Nos países desenvolvidos, a siderurgia integrada tradicional, que transforma o minério de ferro em gigantescos fornos, perdeu competitividade em função dos altos custos de produção. Na Europa e, num ritmo mais lento, nos Estados Unidos as empresas ingressaram em processos de fusão e consolidação. Ao mesmo tempo, as siderúrgicas integradas estão sendo fechadas e substituídas por minissiderúrgicas que derretem sucata de aço. A força de trabalho empregada foi reduzida drasticamente. Em 1974, os países da atual UE, os Estados Unidos e o Japão tinham, em conjunto, quase 2 milhões de trabalhadores siderúrgicos. Em 1990, o total tinha se reduzido para menos de um milhão. Atualmente, gira em torno de 600 mil.

A siderurgia integrada está se tornando uma especialidade de um grupo de países subdesenvolvidos industrializados - China, Coréia do Sul, Brasil e Índia. Nesses países, os custos de produção mais baixos garantem a eficiência e a competitividade. Mas, a modernização tecnológica também faz a sua parte: no Brasil, a siderurgia emprega cerca de 63 mil trabalhadores, praticamente a metade dos 115 mil de 1990.

A relocalização global da siderurgia só não ocorre mais rapidamente ainda em função do protecionismo, praticado pelos países desenvolvidos. Nesse item, os campeões são os Estados Unidos. Desde a década de 80, Washington impõe restrições "voluntárias" às exportações siderúrgicas de seus parceiros comerciais. Roberto Gianetti da Fonseca, secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Cacex), avalia que o Brasil "poderia estar produzindo o dobro ou triplo do aço que produz hoje" se não houvesse aceitado as tais restrições.

A siderurgia participa de um quadro mais amplo de reconversão econômica global, que gera uma nova divisão internacional do trabalho. Os países desenvolvidos especializam-se nas indústrias da revolução tecnocientífica. E os países subdesenvolvidos industrializados, nas indústrias oriundas de ciclos de inovação anteriores.

Os Estados Unidos e a União Européia têm definido as suas políticas comerciais no contexto da reconversão econômica global. De um lado, forçam a eliminação de barreiras para os produtos de alta tecnologia. De outro, erguem muralhas de cotas e tarifas para produtos das indústrias tradicionais, a fim de proteger as empresas domésticas e, em certos casos, os resquícios de uma classe operária em vias de extinção.

Proteção de mercado, quando o que está em jogo são os produtos dos outros. Livre comércio? Isso é para os meus produtos.


O protecionismo de Bush


George Bush enfrenta um duro teste em sua reivindicação de ser um presidente defensor do livre comércio. Antes de 6 de março, ele deve decidir se impõe tarifas sobre as importações de aço a fim de proteger a combalida indústria doméstica. (...) Isso seria desastroso. Iria estraçalhar as relações com parceiros comerciais no mundo inteiro, do Cazaquistão à Coréia do Sul. As relações comerciais transatlânticas, que são cruciais para o lançamento da rodada comercial de Doha, sofreriam estrago considerável. (...) Se tudo isso não é suficiente, tarifas sobre o aço também prejudicariam a economia americana (...). Os Estados Unidos consomem mais aço do que produzem: os consumidores sofreriam muito mais com as tarifas do que os produtores seriam beneficiados.

Essa foi a posição da revista The Economist, em editorial publicado na sua edição de 2 de março, diante do dilema enfrentado pela administração Bush. A Economist é o órgão mais influente do pensamento liberal e, coerentemente, uma defensora radical da globalização econômica. Seus argumentos não foram ouvidos por Bush. Na edição seguinte, um editorial trazia o título: "George Bush, protecionista".

Por que Bush deflagrou a "guerra do aço", colocando em risco importantes relações comerciais americanas e a própria rodada de negociações da OMC anunciada em Doha? Se os Estados Unidos são grandes importadores de produtos siderúrgicos, que servem como insumo para diversas indústrias nacionais, por que reduzir a eficiência de todas essas indústrias? Qual é o sentido de impor custos mais altos às indústrias nacionais, inclusive a indústrias exportadoras, e aos consumidores americanos em geral? Afinal, quais interesses estão por trás do pacote protecionista de cotas e tarifas decidido pela Casa Branca?

Uma parte da resposta encontra-se na já conhecida tendência de Bush de atender aos "interesses especiais" de grupos empresariais influentes. A falência fraudulenta da Enron, uma corporação gigantesca do setor energético, trouxe à tona as relações escandalosas da administração, conduzidas pelo vice-presidente Dick Cheney, com as empresas petrolíferas e termoelétricas - que estão sendo beneficiadas por um generoso pacote de subsídios. Depois dos atentados de 11 de setembro, as companhias de aviação foram salvas da bancarrota por uma torrente de recursos públicos - e mesmo assim fizeram cortes radicais de empregos.

Mas, as empresas siderúrgicas não têm, atualmente, grande influência política. Os seus "interesses especiais" não compensam, mesmo aos olhos de Bush, os danos políticos e econômicos produzidos pelo pacote protecionista. A parte mais importante da resposta encontra-se em outro lugar: o pacote de Bush destina-se a salvar uns poucos empregos, de alto valor simbólico, na indústria siderúrgica.

A globalização e a revolução tecnocientífica têm impacto profundo sobre as estruturas econômicas e de emprego, em escala mundial. De um ponto de vista relativo, os empregos industriais estão sendo transferidos dos países desenvolvidos para um grupo de países subdesenvolvidos da Ásia.

Nos Estados Unidos, a participação da indústria na oferta de empregos teve redução de cerca de 1/3 em menos de três décadas. A Alemanha e a Itália, como os demais países da Europa ocidental, conheceram reduções também significativas. Até mesmo o Japão, o "país-fábrica", experimentou alguma retração no emprego industrial. A imensa maioria dos empregos eliminados pela automação e pela relocalização industrial são de operários de indústrias tradicionais.

As indústrias que dependem da utilização intensiva de mão-de-obra estão em declínio acelerado nos países desenvolvidos. Também declinam na Rússia e nos países da CEI. Na antiga União Soviética, a indústria pesada tradicional representou o eixo do crescimento econômico socialista e chegou a empregar uma parcela imensa da população ativa. Mas, as reformas econômicas liberalizantes tiveram impacto devastador sobre fábricas assentadas em tecnologias antiquadas.

O emprego industrial apresenta estagnação relativa em países em que a arrancada industrial começou há mais de meio século, como o México e o Brasil. Mas, tendo em conta o rápido crescimento da população ativa, esses países experimentam aumento do emprego no Setor Secundário, em termos absolutos. Nada, contudo, que se pareça com o que acontece na Ásia oriental e meridional, onde as indústrias de trabalho intensivo beneficiam-se de baixos custos da mão-de-obra. Na Indonésia, os empregos industriais eram cerca de 4,5 milhões há trinta anos. Hoje, são 16,5 milhões. Na China, passaram de 27 milhões para 150 milhões!

Os Estados Unidos não enfrentam crise de desemprego. Estruturalmente, os empregos industriais eliminados são substituídos por empregos no comércio e nos serviços. Conjunturalmente, mesmo com a recessão, as taxas de desemprego giram em torno de 6%. Mas a siderurgia é um caso especial, em função do seu valor simbólico.

A indústria siderúrgica está associada à noção de poder. O aço serve para fazer blindados e grandes estruturas de engenharia. As torres do World Trade Center estavam sustentadas por colunas de aço. Os operários da siderurgia simbolizam, desde o séc. XIX, a classe trabalhadora. O seu desaparecimento tem repercussões imaginárias e emocionais profundas.

Na campanha eleitoral, Bush cercou-se de operários siderúrgicos da Pensilvânia, num cenário de minas de carvão e altos-fornos, e prometeu defender os seus empregos. Com esse gesto, procurava roubar os votos dos trabalhadores industriais sindicalizados que, tradicionalmente, fluem para o Partido Democrata. Mas, sobretudo, o gesto de Bush tentava associar a sua imagem à da "nação profunda", que não vive em Nova York ou Boston.

Os operários filmados e fotografados ao lado do então candidato a presidente são um resquício da outrora numerosa categoria dos trabalhadores siderúrgicos. O pacote protecionista não evitará que, em alguns anos, quase todos também desapareçam, tragados pela globalização econômica. No máximo, retardará só um pouco o desenlace inevitável. Mas serve para o populismo republicano que busca a união nacional em torno da "guerra contra o terror".

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