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Projeto de ensino de geografia
 - Demétrio Magnoli e Regina Araújo
Imagem decorativaIntrodução
Em 1998, essa seção trouxe textos teóricos que abordavam, cada um a seu modo, o tema geral do Estado e da nação na era da globalização. Em 1999, optamos por tema diferente, mas igualmente crucial - a geografia e o pensamento ecológico ou ambiental. Trata-se de fornecer aos professores os pontos de vista mais significativos, expressos por pesquisadores e autores de ponta.

Escolhemos, como ponto de partida, alguns extratos da obra Limites do crescimento, de Dennis L. Meadows e sua equipe (São Paulo, Perspectiva, 1978). Essa obra marcou época e continua a ter forte impacto sobre o pensamento ambiental, pois estabeleceu as bases conceituais para a atividade do Clube de Roma.

O Clube de Roma nasceu em 1968, a partir de uma reunião de trinta cientistas, economistas e altos funcionários governamentais, com a finalidade de interpretar o que ele denominou, sob uma perspectiva ecológica, "sistema global". Os estudos e propostas dessa associação informal, patrocinados pela Volkswagen Foundation, inauguraram aquilo que foi chamado "ecomalthusianismo". A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo (Suécia) em 1972, ocorreu sob a égide teórica do pensamento emanado do Clube de Roma. Aquela conferência politizou o temário ecológico e abriu um novo campo nas relações internacionais: a ecodiplomacia.

No fundo, o arcabouço teórico do pensamento do Clube de Roma reside na idéia de que o planeta é um sistema finito de recursos, submetido às pressões do crescimento exponencial da população e da produção econômica. As suas conclusões, de tipo catastrofista, apontam o horizonte do colapso do sistema. As suas propostas, ambiciosas, organizam-se em torno da noção de um gerenciamento global da demografia e da economia, a fim de alcançar um estado de equilíbrio dinâmico. A modelagem matemática e o uso de computadores funcionam como instrumentos de sofisticação da abordagem dualista tradicional da ecologia.

Vinte anos depois da Conferência de Estocolmo, a Rio-92, realizada no Rio de Janeiro, ainda sentiu o impacto das teorias do Clube de Roma, principalmente sob a forma das abordagens e propostas apresentadas pelos países desenvolvidos. Mas, no intervalo entre as duas conferências, importantes transformações ocorreram tanto nas sociedades como no pensamento ecológico e ambiental. A Rio-92 foi, também, palco da crítica às teorias do Clube de Roma.

A obra de Dennis L. Meadows e sua equipe, da qual extraímos o texto seguinte, tem trinta anos. No Brasil, foi publicada originalmente em 1972. Ela parece ser o mais adequado ponto de partida para a discussão contemporânea não só pela força política e diplomática que as suas idéias básicas conservam como também porque as formulações posteriores foram, em grande medida, esforços de produção de uma crítica consistente ao pensamento que ela originou.

Modelo Mundial

Nosso modelo mundial foi construído especificamente para investigar cinco grandes tendências de interesse global – o ritmo acelerado de industrialização, o rápido crescimento demográfico, a desnutrição generalizada, o esgotamento dos recursos naturais não-renováveis e a deterioração ambiental. Estas tendências se inter-relacionam de muitos modos, e seu desenvolvimento se mede em décadas ou séculos mais do que em meses ou anos. Com este modelo tentamos compreender as causas que motivam estas tendências, suas inter-relações e implicações nos próximos cem anos.

O modelo que construímos é, como todo outro modelo, imperfeito, supersimplificado e inacabado. Temos plena consciência de suas limitações, mas acreditamos que seja o modelo mais útil disponível no momento para lidar com os problemas mais distantes no gráfico espaço-tempo. Pelo que sabemos, é o único modelo que existe, cujo alcance é verdadeiramente global no seu escopo, com um horizonte de tempo maior do que trinta anos, e que inclui variáveis importantes como população, produção de alimentos e poluição, não como entidades independentes, mas como elementos dinâmicos em interação, tal e como o são no mundo real.

Como nosso modelo é formal e matemático, ele possui também duas vantagens importantes sobre os modelos mentais. Primeiro, porque cada hipótese que formulamos está escrita de maneira precisa para ficar aberta a exame e crítica por todos. Segundo, porque depois de verificadas, discutidas e revisadas para se adaptarem a nosso melhor conhecimento atual, suas implicações para o comportamento futuro do sistema mundial podem ser investigadas, sem erro, por computador, não importando quão complicados possam vir a ser.

Parece-nos que as vantagens acima arroladas tornam este modelo único entre todos os do universo matemático e mental de que atualmente dispomos. No entanto, não há motivo para nos satisfazermos com ele na sua forma atual, e tencionamos modificá-lo, expandi-lo e melhorá-lo, à medida que gradualmente melhorarem os nossos conhecimentos e os dados básicos sobre a situação universal.

São estas as nossas conclusões:

1. Se as atuais tendências de crescimento da população mundial – industrialização, poluição, produção de alimentos e diminuição de recursos naturais – continuarem imutáveis, os limites de crescimento neste planeta serão alcançados algum dia dentro dos próximos cem anos. O resultado mais provável será um declínio súbito e incontrolável, tanto da população quanto da capacidade industrial.

2. É possível modificar estas tendências de crescimento e formar uma condição de estabilidade ecológica e econômica que se possa manter até um futuro remoto. O estado de equilíbrio global poderá ser planejado de tal modo que as necessidades materiais básicas de cada pessoa na terra sejam satisfeitas, e que cada pessoa tenha igual oportunidade de realizar seu potencial humano individual.

3. Se a população do mundo decidir empenhar-se em obter este segundo resultado, em vez de lutar pelo primeiro, quanto mais cedo ela começar a trabalhar para alcançá-lo, maiores serão suas possibilidades de êxito.

Estas conclusões são de tal alcance e levantam tantas questões para estudos ulteriores que, francamente, nos sentimos esmagados pela enormidade do trabalho que precisa ser feito. Esperamos que este livro sirva para interessar outras pessoas em diversos campos de estudo e em muitos países do mundo, para que se ampliem os horizontes de espaço e de tempo de seus interesses; e para que elas se juntem a nós na compreensão e na preparação para uma época de grande transição – a transição entre o crescimento e o equilíbrio global.

Crescimento exponencial e colapso

O modelo contém afirmações dinâmicas somente sobre os aspectos físicos das atividades do homem. Ele supõe que as variáveis sociais – distribuição de renda, atitudes em relação ao tamanho da família, escolha entre bens, serviços e alimentos – continuarão a seguir os mesmos padrões que têm seguido no mundo inteiro, no período histórico recente. Esses padrões e os valores humanos que representam, foram todos estabelecidos na fase de crescimento de nossa civilização. Sem dúvida, eles sofreriam revisões importantes, à medida que a população e a renda começassem a decrescer. Como achamos difícil imaginar as novas formas de comportamento social que podem emergir, e a rapidez com que emergiriam em condições de colapso, não tentamos dar um modelo a tais mudanças sociais. A possível validade de nosso modelo é mantida somente até o ponto onde, em cada gráfico de produção, o crescimento termina e o colapso começa.

Embora tenhamos muitas reservas sobre as aproximações e simplificações no atual modelo mundial, ele nos levou a uma conclusão que parece ser justificada perante todas as suposições que examinamos até o momento. O modo básico de comportamento do sistema mundial consiste no crescimento exponencial da população e do capital, seguido de colapso. Como mostramos nos processamentos-modelo apresentados aqui, essa maneira de comportamento ocorrerá, quer não admitamos mudança alguma no sistema atual, quer aceitemos qualquer número de mudanças tecnológicas no mesmo sistema.

A subetendida suposição por trás de todos os processamentos-modelo que apresentamos neste capítulo é de que o crescimento de população e de capital deveria ser permitido continuar até atingir algum limite "natural". Tal suposição parece ser também uma parte básica do sistema de valores humanos que operam hoje no mundo real. Sempre que incorporamos esses valores ao modelo, o sistema em crescimento se eleva acima de seu limite máximo, e então sofre um colapso. Quando introduzimos desenvolvimentos tecnológicos que eliminam com sucesso algumas restrições ao crescimento, ou evitam algum colapso, o sistema simplesmente cresce até outro limite, ultrapassa-o temporariamente e retrocede. Admitindo-se a primeira suposição, que o crescimento de capital e de população não deveriam ser deliberadamente limitados, mas deveriam ter permissão para "buscar seus próprios níveis", não conseguimos encontrar um conjunto de medidas capazes de evitar o modo de comportamento que conduz ao colapso.

Na realidade não é difícil entender como ocorre o estado de colapso. Em toda a rede entrosada dos ciclos de realimentação que constituem o sistema mundial, achamos necessário representar a situação do mundo real através da introdução de lapsos de tempo entre as causas e seus efeitos últimos. São demoras naturais que não podem ser controladas por meios tecnológicos. Incluem, por exemplo, uma demora de cerca de quinze anos entre o nascimento de uma criança e o momento em que ela pode começar a reproduzir. O lapso de tempo inerente ao envelhecimento de uma população introduz um certo atraso inevitável na sua capacidade de reagir, através da taxa de natalidade, às mudanças de condições. Um lapso de tempo ocorre entre o momento em que o poluente é liberado no meio ambiente e o momento em que se pode medir seus efeitos sobre a saúde do homem. Esse atraso inclui a passagem do poluente através do ar, dos rios ou do solo para a ingestão ou absorção de um poluente até o aparecimento de sintomas clínicos. No caso de algumas substâncias cancerígenas, essa segunda demora pode levar até 20 anos. Outras demoras ocorrem porque o capital não pode ser transferido instantaneamente de um setor para outro para fazer frente às necessidades, porque um capital novo e terra nova só podem ser produzidos ou preparados gradualmente, e porque só lentamente a poluição pode ser dispersada ou transformada em formas inofensivas.

Em um sistema dinâmico, as demoras só produzem efeitos sérios se o próprio sistema estiver passando por mudanças rápidas. Talvez um simples exemplo esclarecerá esta afirmativa. Quando a gente dirige um carro, há uma pequena e inevitável demora entre a percepção da estrada em frente e a reação a ela. Há uma demora mais longa entre a ação sobre o acelerador ou sobre os freios, e a resposta do carro a esta ação. Aprendemos a lidar com essas demoras. Sabemos que, por causa delas, é perigoso dirigir em alta velocidade. Se o fizermos, certamente iremos experimentar, mais cedo ou mais tarde, a condição de ultrapassagem de limite e de colapso. Se tivéssemos de dirigir com os olhos vendados, seguindo as instruções de um passageiro do banco da frente, a demora entre a percepção e a ação seria consideravelmente aumentada. A única maneira segura de lidarmos com demoras prolongadas de tempo seria diminuirmos a velocidade. Se tentássemos dirigir na velocidade costumeira, ou acelerando continuamente (como no crescimento exponencial), o resultado seria desastroso.

Exatamente do mesmo modo, as demoras nos ciclos de realimentação do sistema mundial não seriam problema se o sistema estivesse crescendo muito devagar, ou simplesmente não estivesse crescendo. Nessas condições, qualquer nova ação ou plano de atividade poderiam ser instituídos gradualmente, e as mudanças poderiam superar os obstáculos pela demora no suprimento revertido de informação em todas as partes do sistema, antes de se tornar necessária a introdução de outra ação ou plano de atividade. Contudo, em condições de crescimento rápido, novas ações e planos de atividade são impostos ao sistema, muito antes de se poderem avaliar devidamente os resultados de velhos planos de atividade e ações. A situação é ainda pior quando o crescimento é exponencial, e o sistema está mudando cada vez mais rapidamente.

Assim, a população e o capital, impelidos pelo crescimento exponencial, não somente atingem seus limites, mas temporariamente se projetam além deles, antes que o resto do sistema, com seus atrasos inerentes, reaja para interromper o crescimento. A poluição, gerada em quantidades exponencialmente crescentes, pode ir além do ponto perigoso, porque este ponto só é percebido anos depois de a poluição maléfica ter sido liberada. Um sistema industrial, crescendo rapidamente, pode formar uma base de capital dependente de um dado recurso natural, e logo descobrir que as reservas desse recurso, diminuindo exponencialmente, não podem mantê-la. Devido a atrasos na estrutura etária, uma população continuará a crescer durante setenta anos, mesmo depois de a fertilidade média ter caído abaixo do nível de substituição (uma média de dois filhos para cada casal).

Tecnologia no mundo real

As esperanças dos que vêem a tecnologia com otimismo baseiam-se na habilidade que tem a tecnologia para remover ou estender os limites de crescimento da população e do capital. Já mostramos que, no modelo mundial, a aplicação da tecnologia a problemas aparentes de esgotamento de recursos naturais, à poluição ou à escassez de alimentos, não influi no problema essencial, qual seja, o crescimento exponencial em um sistema finito e complexo. Nossas tentativas de usar no modelo mesmo as estimativas mais otimistas dos benefícios da tecnologia, não evitaram o declínio ulterior da população e da indústria, e, de fato, seja como for, não adiaram o colapso para além do ano 2100. Antes de passarmos ao próximo capítulo em que poremos à prova outras medidas que não sejam tecnológicas, estendamos o nosso exame das soluções tecnológicas e alguns aspectos da tecnologia que não puderam ser incluídos no modelo mundial.

Efeitos colaterais da tecnologia

O Dr. Garret Hardin definiu os efeitos colaterais como "efeitos que eu não tinha previsto ou sobre os quais não quero pensar". Ele sugeriu que, sendo tais efeitos realmente inseparáveis do efeito principal, não deveriam ser, de modo algum, denominados colaterais. Naturalmente, a tecnologia nova tem efeitos colaterais, e um dos objetivos principais da construção de modelos é antecipar tais efeitos. As tiragens-modelo no computador, neste capítulo, mostraram alguns dos efeitos colaterais de várias técnicas sobre os sistemas físico e econômico mundiais. Infelizmente, o modelo não indica, neste estágio, os efeitos sociais colaterais de novas técnicas. Muitas vezes eles são os mais importantes em termos da influência que a tecnologia tem sobre as vidas das pessoas.

Um exemplo recente de efeitos sociais colaterais, provenientes de uma nova tecnologia bem-sucedida, apareceu com a introdução da Revolução Verde nas sociedades agrárias do mundo. A Revolução Verde – a utilização de novas variedades de sementes, combinada a fertilizantes e pesticidas – foi projetada para solucionar, tecnologicamente, os problemas mundiais de alimentação. Seus planejadores previram alguns dos problemas sociais que esta Revolução poderia provocar em culturas de povos tradicionais. O objetivo da Revolução Verde era não somente produzir mais alimentos, mas ser propulsora de trabalho – para proporcionar empregos e não requerer grandes quantidades de capital. Em algumas áreas do mundo, como no Punjab Indiano, a Revolução Verde, na realidade, aumentou o número de empregos na agricultura mais rapidamente do que a taxa de crescimento da população total. De 1963 a 1968, houve no Punjab Oriental um aumento real de 16% nos salários.

O efeito principal ou projetado da Revolução Verde – aumento da produção de alimentos – parece ter sido obtido. Infelizmente, as conseqüências sociais colaterais não foram inteiramente benéficas, na maioria das regiões onde as novas variedades de sementes foram introduzidas. Antes da Revolução Verde, havia no Punjab Indiano um sistema admiravelmente eqüitativo de distribuição de terras. O padrão mais comum de posse de terras no mundo não-industrializado é o latifúndio, com a maior parte da população cultivando fazendas bem pequenas, e poucas pessoas possuindo a vasta maioria das terras.

Onde estas condições de desigualdade econômica já existem, a Revolução Verde tende a aumentá-las. Os grandes proprietários são geralmente os primeiros a adotar os novos métodos. Eles têm o capital para fazê-lo, e podem arriscar-se. Embora as novas variedades de sementes não exijam máquinas agrícolas, elas proporcionam bastante incentivo econômico para a mecanização, especialmente onde cultivos variados exigem rapidez na colheita e no replantio. Em grandes fazendas, simples considerações econômicas levam quase que inevitavelmente ao uso de máquinas em substituição à mão-de-obra e à aquisição de mais terras. Os efeitos finais desse ciclo positivo de realimentação socioeconômica são o desemprego na zona agrícola, o aumento da migração para as cidades, e talvez mesmo o aumento da desnutrição, já que os pobres e os desempregados não dispõem de meios para comprar os alimentos produzidos com o auxílio da nova técnica.

Uma empresa de PRISA