Eratóstenes
foi o primeiro matemático da Antigüidade que encontrou a medida da circunferência
da Terra com valor mais próximo do atual.
Crivo de Eratóstenes
Os números que ficaram circulados no quadro são os primeiros de uma importante
seqüência de números naturais - a seqüência dos números primos:
2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, 23, 29, 31, 37, 41, 43, 47, ...
Um número natural p é um número primo se p não é 0 nem
1 e se os únicos divisores de p são 1 e o próprio p.
Um número natural a, com a não-nulo e diferente de 1, é chamado
de composto se a não é primo.
Todo número composto pode ser escrito como um produto de números primos (fatores
primos).
Vamos verificar, por exemplo, se o número 30 é primo ou composto.
30 é divisÃvel por 2. Logo, seus divisores não são apenas 1 e 30. Portanto,
30 é composto.
Veja como podemos decompor 30 em fatores primos:
30 = 2 × 3 × 5
Observe que 0 e 1 não são primos nem compostos.
Note também que todos os múltiplos de um número primo p, exceto ele mesmo,
não são primos, pois são divisÃveis por pelo menos três números: o 1, ele mesmo
e o primo p.
O procedimento mostrado no quadro, chamado de crivo de Eratóstenes,
em homenagem a seu criador, é um método sistemático para encontrar todos os
números primos de 1 até um certo número natural n (todos os números naturais
primos menores que n ou igual a ele).
Esse método consiste em dispor os números naturais de 1 a n, em ordem
crescente, em um quadro e ir eliminando, por etapas, os números que não são
primos do seguinte modo:
Observando novamente o quadro apresentado, notamos que podemos parar no primo
7, pois temos
. Ou seja,
para determinar todos os números naturais primos menores que 50, basta riscar
os múltiplos de 2, 3, 5 e 7.
Apesar de o crivo de Eratóstenes ser utilizado somente para números naturais,
quando estendemos a definição de número primo para o conjunto dos números inteiros,
ele também pode nos ajudar.
Um número inteiro p é chamado de primo se |
p | é um número natural primo.
Assim, dizemos que um número inteiro p é primo se, e somente se,
,
e os únicos divisores de p são ±1 e ±p.
Podemos afirmar, por exemplo, que o número inteiro
2
é primo, porque seus únicos divisores são ±1 e ±2.
O número inteiro
25
é composto, porque seus divisores não são apenas ±1 e ±25, já que
25
também é divisÃvel por 5 e
5.
Como a definição de um inteiro primo está ligada à de um natural primo, podemos
aplicar o crivo de Eratóstenes para um intervalo de números inteiros da seguinte
forma: encontramos os números naturais que devem ser riscados e, a seguir, cancelamos
também os opostos dos números naturais que foram cortados.
Por exemplo, se precisarmos determinar todos os números inteiros primos que
estão entre
20
e 20, aplicamos o crivo de Eratóstenes para procurar os números primos menores
que 20.
Encontraremos, então:
19,
17,
13,
11,
7,
5,
3,
2,
2, 3, 5, 7, 11, 13, 17 e 19
Depois de Eratóstenes, por quase vinte séculos, poucos resultados importantes
envolvendo números primos foram encontrados.
Em 1644, o frade francês Marin Mersenne (1588-1648) afirmou, no prefácio de
sua obra
Cogitata phisico-mathematica, que os números da forma 2p
1 são primos
para todo p igual a 2, 3, 5, 7, 13, 17, 19, 31, 67, 127 e 257, e que
para todos os outros primos p < 257, os números da forma 2p
1 são compostos.
Não existem informações indicando que Mersenne tinha alguma base teórica para
fazer tal afirmação, porém hoje se sabe que esta apresenta apenas 5 erros, o
que é notável, considerando as limitações computacionais em sua época.
Os números Mn = 2n
1, para n = 1, 2, 3, 4, ..., são chamados de números de Mersenne.
Na verdade, temos que:
A caça de números primos de Mersenne continua. Um grupo de internautas, sob
a sigla de GIMPS (The Great Internet Mersenne Prime Search), comanda, com seus
computadores, essa aventura e já contribuiu com a descoberta de alguns desses
números.
Medindo a circunferência da Terra
Se precisarmos medir a circunferência de uma bolinha de isopor, podemos colocar uma linha ou fita em torno dela e, depois, obter o comprimento com uma régua. Mas, como fazer para medir a circunferência da Terra?
O método para medir a circunferência da Terra que será descrito foi realizado
por Eratóstenes, no século III a.C. Um dia, quando lia um papiro da grande biblioteca
de Alexandria, da qual era diretor, uma informação chamou a atenção dele.
Na cidade de Siene, localizada no Egito, no dia mais longo do ano (chamado solstÃcio de verão), ao meio-dia, uma estaca em posição vertical não projetava sombra e o reflexo do Sol podia ser visto na água, no fundo de um poço. Eratóstenes, então, fez o seguinte experimento: verificou se em Alexandria, no solstÃcio de verão, próximo ao meio-dia, estacas verticais projetavam sombra.


O Sol está tão distante que seus raios são paralelos quando chegam à Terra.

Pelo comprimento da sombra em Alexandria, o ângulo
foi medido, encontrando-se aproximadamente 7°12'.
Observando que as retas r e s eram paralelas interceptadas pela
transversal t, Eratóstenes concluiu que os ângulos
e
eram
congruentes (ângulos alternos internos).
O ângulo
tem o vértice no centro da Terra e determina na circunferência da Terra o arco
compreendido entre Siene e Alexandria (o arco SA). Logo, esse arco também
mede 7°12'.
Como
,
o referido arco é igual a
da circunferência da Terra.
Eratóstenes sabia que a distância entre Alexandria e Siene era
de aproximadamente
800 quilômetros, porque tinha contratado um homem para medi-la em passos. Então,
fazendo
50 × 800 encontrou 40.000 quilômetros, que deveria ser o comprimento da circunferência
da Terra.
Referências bibliográficas
Boyer, C. B. História da Matemática. Trad. Elza F. Gomide. São Paulo,
Edgard Blücher, 1996.
Domingues, H. H. Fundamentos de Aritmética. São Paulo, Atual, 1998.
Eves, H. Introdução à história da Matemática. Trad. Hygino H. Domingues.
Campinas, Editora da Unicamp, 1994.
Gundlach, B. H. História dos números e numerais. Trad. Hygino H. Domingues.
São Paulo, Atual, 1992.
Ronan, C. A. História ilustrada da ciência - das origens à Grécia, v.
I. Trad. Jorge Enéas Fortes. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1994.
Sagan, C. Cosmos. Trad. Ângela do N. Machado. Rio de Janeiro, Livraria
Francisco Alves Editora, 1982.